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Há algum tempo atrás um amigo me chamou no Whatsapp e disse que passou meu contato para o pessoal da Vice Brasil. Vou explicar um pouco. Na minha minha vida off-line, sou fotógrafo profissional e tenho uma agência digital na cidade de Franca. Esse foi o motivo dele ter passado meu contato para a Vice.

Retornando…

Eu não conseguia imaginar o que o pessoal da Vice iria querer com um fotógrafo do interior de São Paulo, aliás, como disse acima, moro em Franca, e aqui na região não tem tantas coisas – SUPER UAL – como tem na grande São Paulo e em outras capitais. Não que eu esteja reclamando da minha terra natal, até gosto um pouco daqui, mas não tem nada muito interessante.

Após esse amigo me mandar a mensagem, passaram-se alguns dias e um dos responsáveis pelo portal de notícias realmente entrou em contato comigo, disse que tinha uma pauta no interior de São Paulo para ser fotografada, mais especificamente na cidade de Jardinópolis, que fica aproximadamente uns 70km da minha casa. Ele pediu algumas fotos de trabalhos, mais especificamente retratos. Separei alguns, enviei pelo Whatsapp mesmo. Negociamos um valor e fechamos uma data.

Rubens Francisco Lucchetti-30

Ele me explicou um pouco sobre como seria feito o trabalho, e em algum momento da conversa me disse o nome Rubens Francisco Lucchetti. Nervosismo e emoção tomaram conta do meu corpo. Eu não sabia se ficava extremamente feliz por ter a oportunidade de conhecer Lucchetti pessoalmente ou se recusava o trabalho e ficava com medo de não conseguir executar minha tarefa com perfeição devido ao nervosismo.

No meu ramo profissional, ao longo dos anos fotografei incontáveis celebridades, personalidades internacionais, bandas nacionais e internacionais super famosas (inclusive passava horas no camarim com muita delas), já fui na casa de algumas dezenas de famosos, tanto fazendo meu trabalho quanto como visita social devido ao círculo social que eu frequentava em certas épocas da vida, mas pela primeira vez na vida, minhas pernas tremeram e eu senti o tão famoso nervosismo ao conhecer alguém.

Acredito que terei uma reação bem pior quando tiver a oportunidade de chegar perto de Neil Gaiman, que pra mim, é um deus na Terra e meu escritor favorito.

Rubens Francisco Lucchetti-22

Encurtando um pouco a história: O trabalho foi fechado, demos as mãos virtualmente e combinamos uma data para ir até a residência de Lucchetti e executar o trabalho. Foram aproximadamente 7 dias sem conseguir dormir muito bem, reli algumas coisas do escritor, fiz uma pesquisa um pouco mais elaborada pra afinar tudo o que eu sabia sobre ele e não falar nenhuma bobeira quando o encontrasse. Tentei fazer um roteiro de trabalho em minha cabeça, mas o mesmo foi desfeito inúmeras vezes. O job estava agendada para uma manhã de segunda feira e como podem imaginar, minha noite foi ás claras, lendo, pesquisando, pensando em qual tipo de iluminação deveria levar, quais câmeras e lentes deveria separar, modificadores de luz, rádio flash, etc.

A visita estava marcada para as 9h da manhã, como não conhecia a cidade de Jardinópolis, mesmo sendo uma cidade bem pequena e próximo de Franca, cheguei uns 10 minutos atrasado. Era feriado na cidade e não tinha ninguém nas ruas pra eu pedir informação (sim, antes que comentem, eu nem tinha lembrado de colocar o endereço no gps do celular).

Cheguei até a casa de Rubens, que fica bem no centro da cidade de Jardinópolis, tem uma fachada com uma cor meio avermelhada/rosa/marsalla, um portão para carro, apesar de que, mais tarde, descobri que tinha diversos vasos dentro da garagem, um portãozinho, no qual fomos recebidos (fui com minha esposa), e uma porta dessas de loja, aquelas que abrem para cima.

Não tinha campainha, bati no portãozinho e segundos depois fomos recebidos por um senhor com uma roupa social, todo arrumadinho, de gravata e um sorriso no rosto: “Vocês são das fotos, né?” foi o que ele disse assim que abriu o portão e nos convidou para adentrar ao seu mundo.

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Pedi um minuto e fui descarregar o carro, pegar todos equipamentos, tripés, luzes e tablet. Entrei em sua residência e a mágica aconteceu. Nos primeiros passos nos deparamos com estátuas gregas, a primeira era Romeu e Julieta. Entramos em sua cozinha e fomos convidados para a sala. A casa era tão ímpar e interessante quanto Rubens Francisco. Eu não sabia para onde olhava, não sabia se já começava conversando sobre o trabalho e explicava as ideias que eu tinha, não sabia se puxava algum assunto aleatório. Estava extasiado, me sentia emocionado, as palavras não saíam, as ideias não vinham, mas poucos segundos após todos sentarmos no sofá, ele já começou a nos contar suas histórias.

Perguntou um pouco sobre nossa vida, e desde esse segundo até o momento da despedida, fui agraciado com diversas histórias desse senhor que todos no Brasil deveriam conhecer.

Em poucos minutos de conversa, eu estava me sentindo um jornalista inoportuno que não parava de metralha-lo com perguntas e curiosidades. Óbvio que perguntei de suas obras, seus trabalhos, mas estava mais interessado em saber sobre sua vida. Queria saber como foi a vida de Rubens e não saber apenas o que ele fez, apesar de tudo ser muito interessante.

Rubens Francisco Lucchetti tem 1.547 livros publicados, diversos roteiros de cinemas escritos e muitos filmados por Mojica (Zé do Caixão), centenas de histórias em quadrinhos escritas e também desenhadas, rádio novelas, foto novelas, contos, poemas, desenhos, quadros pintados. Acredito que nem deu tempo dele nos contar todos seguimentos que ele já atuou em sua vida.

Lucchetti contou que pouquíssimos livros foram publicados com o seu nome. Segundo ele, as editoras achavam mais interessantes lançar livros com nomes americanos, europeus ou russos. São mais de 50 heterônimos criados, todos com uma história por trás do personagem e uma linha de pensamento única. Rubens é conhecido por suas histórias macabras, mas o autor escreveu romances, ficção científica, horror, faroeste, detetive & mistério e até mesmo livros eróticos, que segundo ele, dava algum dinheiro na época e todos gostavam de ler

Nesse momento de conversas, comecei a fazer alguns cliques espontâneos, tentei ser o mais discreto possível, deixei os flashs rebatendo nas paredes, um pouco longe do escritor, nada muito em sua cara, para não incomodar.

Perguntei se ele lembrava qual foi sua primeira obra publicada. Fomos convidados para um outro cômodo no qual ele nos mostrou um artigo intitulado de A Única Testemunha, que foi publicado em 64.

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Passei algum tempo nesta sala fotografando vários detalhes, estátuas, colecionáveis, livros, roteiros, gatos, enfeites e quadros, enquanto Lucchetti estava no corredor ao lado contando suas histórias para minha esposa. Tentando prestar atenção em tudo que me cercava, pude ouvir um pouco da conversa dos dois e me deparei com um homem emocionado e sentindo falta de sua esposa. Cada vez que falava sobre ela, o brilho em seus olhos mudava, ele ficava mais animado e fazia questão de nos mostrar detalhes sobre sua falecida esposa, inclusive fotos, e quadros que ele pintou a partir de algumas fotos. Ela era linda!

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A casa é cheia de enfeites deixados por sua esposa, ele herdou uma coleção de aproximadamente 150 relógios de paredes, barbies e até mesmo garrafas térmicas.

Algum tempo se passou e conheci Marco Aurélio Lucchetti, seu único filho que também é detentor de uma veia criativa. Além de todas as coisas citadas acima, Rubens conseguiu transmitir inteligência e criatividade em sua DNA.

Anotem esse nome, Marco Aurélio Lucchetti, vocês ainda ouvirão falar muito sobre ele, principalmente se é fã de quadrinhos.

Por falar em quadrinhos, em sua casa tem prateleiras intermináveis de quadrinhos e livros. Rubens me contou que ele tem a maior biblioteca particular do Brasil, somando mais de 150 mil títulos que enquadram em todas categorias que possamos imaginar. Sua casa parece um labirinto, eu não consegui contar quantos cômodos tinha, só sei que todos eles eram abarrotados de livros, todos em perfeito estado e com as prateleiras forradas por um tipo de plástico.

Fomos para um outro cômodo, na frente de sua casa, que é onde fica seu escritório e onde ele senta todos os dias para escrever. Chegando lá, só haviam quadrinhos, todos que possam imaginar, títulos que conheci na minha infância por influência do meu pai, títulos que eu não conhecia, coleções que eu daria meu rim para ter. Até disse, que, se algum dia pensarem em doar algo, para lembrar de mim. (Espero que lembrem de verdade hahahah)

Nesse lugar tivemos contato com suas obras mais importantes, ele tinha alguns armarinhos, desses normais, de metal, que tem em todo escritório, lotado de roteiros e algumas coisas que não foram publicadas.

Eu perguntei a ele qual era a obra mais importante de sua vida, ele me perguntou de qual área (novela, livros, quadrinhos…), mas eu expliquei: “Eu queria saber o que você em sua casa que é mais importante pra ti, ou por reconhecimento público ou emocionalmente”.

Sem pensar, ele pegou um livro de capa dura verde, todo escrito na máquina de escrever e disse: “Esse aqui”.

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Perguntei do que se tratava, e ele disse que foi um livro onde ele reuniu diversos contos que foram escritos para sua amada quando ela ainda nem o conhecia. Ambos trabalhavam no mesmo jornal, e ele escrevia artigos, e toda semana publicava um artigo pra ela sem ela saber, mesmo ela sendo a editora chefe e revisora. Nada era publicado sem antes passar por seus olhos.

Tive o prazer de ler alguns artigos e poemas, confesso que escorreu algumas lágrimas de meus olhos, eram lindos.

Ficamos pouco tempo em seu escritório, fiz algumas fotos, gravei alguns vídeos e perdi, aliás, na verdade ganhei, vários minutos conversando sobre quadrinhos com Marco Aurélio, tanto que nem vi o tempo passar, quando me dei conta, já estava estourando o prazo para voltar para minha cidade e fazer o segundo job do dia.

Falei para Francisco que meu tempo estava se esgotando e ele nos convidou para almoçar. Sentamos na cozinha enquanto Rubens fazia seu conhecido espaghetti com molho. Fomos servidos acompanhado de queijo ralado e coca-cola. Almoçamos um pouco com pressa, voltamos para a sala e fiz alguns retratos oficiais.

Nos despedimos, agradeci por ter sido tão simpático e compartilhado com a gente todas essas histórias e conhecimento e fui para carro. Quando entrei no carro, lembrei que tinha esquecido de comprar um livro dele, eu precisava ter algo autografado por Rubens Francisco Lucchetti.

Voltamos até sua residência, pedi desculpas por atrapalha-lo novamente, e disse que queria comprar um de seus livros. Seu filho pegou pra gente e com a maior atenção, Rubens pega uma caneta e faz uma bela dedicatória. Inclusive ganhamos mais dois livros, um deles para presentearmos nossa filha com a dedicatória mais bela.

Essa foi a minha visita na casa de R.F. Lucchetti, o último escritor Pulp vivo no Brasil.

Para conhecer toda sua história leia a entrevista completa que saiu no portal Vice Brasil clicando aqui.

https://youtu.be/NQu6YHPV8wc

Obrigado por todo carinho, atenção e pelo almoço 😉

Quem quiser adquirir alguma de suas obras, eles estão vendendo pelo Facebook – CLIQUE AQUI.


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Rafa Gnomo

Legend

Meu nome é Rafael Mendes, tenho 31 anos, sou jornalista por formação e fotógrafo publicitário por profissão. Desde a minha infância sou apaixonado por tecnlogia, vídeo games e livros e foram esses três hobbies que moldaram a minha personalidade. Hoje tenho uma filha de 4 anos que virou personagem importante em minha vida e no site Nerd Pride, fazendo parte de diversos conteúdos que publico na categoria "Padawan".
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