89
395 shares, 89 points
“Os covardes morrem várias vezes antes da sua morte, mas o homem corajoso experimenta a morte apenas uma vez.”
Melhor passagem não caberia para definir a mente e o espírito livre de Oliver Sacks. Em sua autobiografia, Sempre em Movimento, recentemente publicada no Brasil pela Companhia das Letras, o neurologista constrói um mosaico sobre sua vida, aliás, como qualquer ser humano; uma cadeia de eventos repleta de sonhos, desejos, experiências e frustrações.

sempre-em-movimento

Fugindo do usual para o gênero, o biógrafo e o biografado, cooperam e duelam com a memória para narrar uma história que flerta entre o filosófico e o artístico, sobre um protagonista que viveu ao melhor estilo carpe diem.
Falecido em Agosto, Oliver Sacks até então com 82 anos, fora diagnosticado com um câncer terminal no fígado no inicio desse ano e diante da morte iminente, escrevera uma carta aberta para o New York Times, onde de forma sensível e emocionante, o também professor relatava e divagava sobre o que de fato era importante nesses últimos meses de vida.
“Não posso fingir não ter medo. Mas o sentimento que predomina em mim é a gratidão. Eu amei e fui amado; tive muito e dei muito em troca; eu li, e viajei, e pensei, e escrevi. Acima de tudo, eu fui um ser senciente, um animal pensante sobre este belo planeta, o que, por si só, já foi um enorme privilégio e uma aventura.”
A morte é uma só, mas trágica em diversas formas. Quando vêm de forma precoce, nos assusta e indigna, pelo assalto para com a vida e respectivamente, por tudo aquilo que não foi vivido. Quando ela se apresenta consciente, ela ao menos permite ao homem refletir sobre sua história, sobre o que permanecerá da sua pessoa além da carne, dos seus feitos e das memórias pertencentes a terceiros.
Com esse projeto já em andamento e antevendo seu futuro, Sacks constrói uma narrativa sutil, rica em conteúdo e bastante envolvente sobre sua carreira, sua vida e diversas experiências em áreas, que particularmente, nunca pensei que fizessem parte da história daquele senhor de sorriso aberto e semblante simpático, que sempre ilustrava as orelhas dos seus respectivos livros.
Misturando suas experiências como pessoa e profissional, Oliver Sacks insere no livro passagens sobre sua vivência com drogas, sua rebeldia e paixão por motos e velocidade, além da sua fase pelo fisiculturismo.
“Comecei a consumir mais drogas no meu início em Nova York… Tomava anfetaminas constantemente e comia muito pouco; emagreci tanto — quase 40 quilos em três meses — que mal conseguia suportar a minha imagem no espelho, de tão macilento que estava.”
Ora soando cômico, ora como um road-trip book, Sempre em Movimento é notável por combinar vários gêneros e até flertar com o erotismo. Tudo isso em paralelo a uma juventude desviada, uma família incompreendida e uma sexualidade transfigurada.
Sua mãe, Muriel Sacks lhe traumatizou quando descobriu sua homossexualidade:viskontas-sacks-tall
“Você é uma abominação”. Quisera que você nunca tivesse nascido.”
“As palavras de minha mãe me perseguiram durante grande parte da minha vida, instilando um sentimento de culpa em algo que deveria ser uma expressão de sexualidade livre e prazerosa.”
Suas relações afetivas descritas no livro foram transitórias e alguma até conturbadas e entre tantas, nos anos 70 Oliver optou por um celibato que durou mais de três décadas. Sacks se permitiu amar novamente quando conheceu seu companheiro e também escritor, Bill Hayes, em 2008. Este por sua vez, permaneceu ao seu lado durante todo esse tempo, até seus últimos momentos, como se percebe na tocante coluna de Luiz Schwarcz, amigo de Oliver Sacks  e editor da Companhia das Letras.
No título ainda há espaço para detalhar o que seria um making of, de alguns dos seus livros. Tempo de despertar, A ilha dos daltônicos, Como uma perna só, são só alguns exemplos do quanto Sacks foi preciso em nos deliciar com detalhes inéditos sobre a construção desses livros.
A leitura de Sempre em Movimento, nos permite conhecer outro Oliver Sacks, bem diferente da figura que projetamos ao lermos seus livros. Humano, generoso e entusiasta, percebe-se que sua essência está ali, impressa em quase 400 páginas, como um atestado vívido e perpetuo de um espírito aberto, uma mente erudita e letrada e que nos faz entender, que toda doença tem uma historia, toda historia tem um paciente/personagem e que por fim, todos nós não passamos de meros coadjuvantes na grande e cíclica peça chamada: viver.
 “Agora o fim está próximo; apesar da timidez, foi uma jornada muito prazerosa”.

Oliver Sacks

Oliver Sacks, sua obra…

Autor de mais de 12 livros, Oliver Sacks é um autor plural e dinâmico para com o conteúdo de seus livros. Das mais curiosas e estranhas síndromes a experiências reais vividas pelo próprio autor, conheça todos os livros do neurologista publicados no Brasil:

 


Gostou desse artigo? Compartilhe com seus amigos!

89
395 shares, 89 points
Leandro de Matos

Legend

Escolha um estilo de post
Post padrão
Postagem padrão, com formatação de textos e imagens
Lista
Listas clássicas da internet
Vídeo
Youtube, Vimeo ou Embeds do Vine
Imagem
Fotos e imagens
Gif
GIFS
Quiz
Série de perguntas com respostas certas e erradas que pretende verificar o conhecimento
Votação
Votar para tomar decisões ou determinar opiniões
Lista aberta
Envie seus próprios ítens e vote nos melhores envios
Listas por ranking
Clique acima ou abaixo para votar nas melhores listas
Meme
Faça upload de seus imagens e crie memes próprios