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Contemplar uma obra de arte é um exercício intrínseco e singular, onde a obra, seja ela qual for, busca em sua expressão deixar ou trazer alguma sensação, remeter a alguma memória ou despertar algum dos nossos sentidos.

Tomando por exemplo uma pintura, acredito que cada pincelada, cada textura, cada camada inserida na tela possua um propósito. Uma razão que pode não estar diretamente visível, mas está lá sobreposta na tela para representar uma ideia, uma convicção, uma mensagem.

Em paralelo a isso, há um livro que trata e retrata a vida e a fascinação pela arte em suas mais de 700 páginas. Um livro que transita entre o prolixo e conciso, entre o presente e o passado, entre fatos e ficções.

O Pintassilgo foi escrito à mão (!) e sua criadora não se furta do prazer (e do processo) de ainda escrever dessa forma. Talvez por isso mesmo, sua escrita seja concebida quase de forma cíclica, pois de dez em dez anos, uma nova obra surge e movimenta o meio literário com uma história profunda e intensa.

Reclusa, envolta em mistérios e com uma aparência praticamente ambígua, Donna Tartt, é avessa a entrevistas e poucos são os detalhes conhecidos sobre sua vida pessoal e profissional. Sua escrita se arquiteta sob tramas complexas e dramas fortemente psicológicos e principalmente, na construção e desconstrução de verossímeis personagens.

Suas três obras já publicadas (todas pela Companhia das Letras no Brasil) são narradas sobre essa perspectiva. Em A História Secreta, seu primeiro romance, Tartt se utiliza dos olhos e da voz de Richard Papen, para contar sobre a vida de seis universitários da Califórnia que no melhor estilo “sexo, drogas e filosofia”, são responsáveis por um fatídico assassinato. Alçado ao status de cult no final dos anos 90, o livro conquistou sua devida atenção dentro e fora do meio universitário. Uma década depois, a autora retorna com O Amigo de Infância, mais um romance com um crime na trama, onde dessa vez a autora se debruça sobre a complicada família de Harriet Dufresnes, uma personagem que durante toda a narrativa é tomada por questionamentos sobre a vida e pelo fantasma da morte do irmão mais velho enquanto a mesma era apenas um bebê e segue, por conta própria uma investigação para entender o que de fato ocorreu.

E no início da terceira década de carreira, Donna Tartt abala e divide o mercado editorial com O Pintassilgo, sua obra mais celebrada (e criticada), vencedora de meia dúzia de prêmios, dentre eles o Pulitzer.

The Goldfinch

Em seu terceiro romance, Tartt edifica um romance de formação ao contar a vida de Theodere Decker, um personagem que exorciza suas memórias ao relatar sobre todos os eventos que o levaram a ser um adulto fragmentado e problemático, e que tiveram início com um atentado ocorrido no Metropolitan Museum of Art em Nova Iorque, no qual vitimara sua mãe. Fato esse que sustenta e viabiliza toda a narrativa do título.

Desacreditado do mundo e da sua própria identidade, Theo vive o melhor (e o pior) do estilo carpe diem. Vivendo nos extremos e nos opostos do que um dia acreditou ser capaz de fazer e viver, este personagem-narrador segue em busca de preencher de forma vã o espaço deixado pela falecida mãe. E é nessa contenda que essa busca ganha forma e representação.

Pouco antes do atentado, Theo ouvira atentamente da mãe um pequeno ensaio sobre pintores holandeses e suas particularidades artísticas. Sua admiração e fascínio fica explícita na tela d’O Pintassilgo, obra de arte de Carel Fabritius, artista que compartilha com a mãe do personagem, não só o amor pela arte em si, como também outra infeliz coincidência fora do livro. Na tela de 1654, Fabritius imprimiu sob tons claros, sombras e com um jogo de perspectiva um pássaro vivo, mas infeliz acorrentado sob uma das patas em um poleiro. Uma obra que rompeu o padrão artístico e estético da arte holandesa da época.

“Acho que o que quer que conseguimos salvar da história é um milagre.”

Em meio ao caos devido ao atentado, Theo resolve “recuperar” a obra dos escombros e a mantém como um segredo, como um elo que dura anos e que associa a pintura à memória e a tudo aquilo que um dia a mãe do personagem já foi.

“Se eu pudesse voltar no tempo arrancaria a corrente num piscar de olhos e nem por um minuto me importaria com o fato de que o quadro jamais seria pintado…”

Vivendo de pequenas transgressões e em um lar falsamente aristocrático, Theo não soube amadurecer e envelhecer de forma saudável e passou toda a adolescência se entregando ao fácil e ao banal. E assim segue seu relato até a idade adulta, onde velhos hábitos apenas mudaram de forma, mas nunca foram abandonados, como também a solidão e a constante falta da mãe ainda estão presentes e continuam sendo supridas por experiências momentâneas e drogas ilícitas.

Comparada a Dickens (e seu famoso órfão), Dostoiévski (e seus romances psicológicos) e tantos outros cânones da literatura mundial, a bem verdade é que Tartt ainda está longe destes, mas sua escrita narra sentimentos, sensações, medo e euforia de uma forma precisa e elegante. Por vezes, o romance pode ser excessivo sim, mas tamanha a habilidade da prosa da autora nos faz ficar tão presos a trama, e consequentemente a vida de Theo e daqueles que o cercam, que fica difícil simplesmente abandoná-lo ao primeiro embargo.

Sem gênero definido, além do que posso dizer dele se tratar de um romance, o título é uma mescla de suspense, romance policial, drama psicológico e livro-reportagem. De Radiohead a Shostakovich, de Orson Wells a Platão, O Pintassilgo também é um retrato de referências, metáforas e alusões as mais diversas formas de arte.

“E sinto que tenho algo muito sério e urgente para dizer a você, meu leitor não existente, e sinto que deveria fazê-lo com tanta urgência quanto se estivesse no mesmo recinto que você. Que a vida – independentemente do que mais ela seja – é curta. Que o destino é cruel, mas talvez não aleatório. Que a Natureza (isto é, a morte) sempre vence, mas que isso não significa que temos nos curvar e rastejar diante dela(…) e, no meio do nosso morrer, enquanto saímos do orgânico e afundamos ignominiosamente de volta nele, é uma glória e um privilégio amar o que a morte não toca.”

O Pintassilgo é como a obra de arte, um painel em camadas sobrepostas repleta de mistérios e significados subjetivos, onde em uma rápida e descompromissada leitura pode deixar passar detalhes mínimos, mas inseridos ali com o intuito de fazê-la única e inesquecível. Afinal, clássicos não nascem assim imediatos, comumente são alvejados, excluídos e criticados, mas suas essências estão lá, permanentes e intactas, como prova daquilo ao qual foram referenciados a esse status. No caso, para o livro, em linhas firmes para apresentar um quadro sobre a arte, sobre a vida, enfim, sobre tudo.

Prolífero, subjetivo, sublime.

Livro

FICHA TÉCNICA

Título original: The Goldfinch
Tradução: Sara Grünhagen
Capa: Keith Hayes
Páginas: 728
Formato: 16.00 x 23.00 cm
Peso: 0.94100 kg
Acabamento: Brochura
Selo: Companhia das Letras


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Leandro de Matos

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