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Inúmeras culturas (e religiões) têm suas respectivas definições do que seria o Inferno, onde praticamente todos possuem rios, são locais destinados a tortura e ao sofrimento (quase sempre pelo fogo) e dependendo dos pecados cometidos pelo indivíduo, há subníveis para sua devida remissão.

A cultura tradicional chinesa falava sobre o Diyu, alguns ramos do hinduísmo acreditavam no Nakara, um local onde o karma é expiado para uma nova reencarnação. Na mitologia grega há o Tártaro, antigos textos egípcios falavam sobre o Duat e talvez o mais diferente de todos seja o Niflheim, pois o inferno dos nórdicos é gelado.

Segundo o Cristianismo e suas inúmeras ramificações, boa parte dos pecados são cometidos através de tentações. Se não for deliberado, essas tentações são personificadas em demônios que tipificam uma atitude, uma intenção. É intrínseca a História das religiões a dualidade entre o bem e mal, entre a luz e a escuridão. Um não existe sem o outro, são gêmeos, faces de uma eterna disputa.

Por isso mesmo a literatura sobre demônios e possessões despertam a atenção dos homens há séculos. De Dante Alighieri a William Peter Blatty, todos deixaram sua assinatura ao escrever sobre aspectos diretos ou indiretos sobre o tema. Quando se acreditava que o argumento já havia exaurido, eis que então surge um novo nome que flerta com habilidade diante da questão.

Andrew Pyper possui uma excelente carreira internacional. O canadense ganhou o International Thriller Writers no qual concorria com ninguém menos que Stephen King! Foi finalista do Shirley Jackson Award e do Sunburst Award e figurou na lista dos mais vendidos de alguns jornais.demonologista-3d

O livro em questão é O Demonologista, romance que conta a história de David Ullman, um acadêmico especialista em mitologia e narrativa religiosa e principalmente, no poeta inglês John Milton, autor do poema épico Paraíso Perdido. Ullman que também dedica boa parte de sua vida acadêmica a desmitificar a figura do Demônio em escritos e livros antigos, vê sua vida (com o perdão do trocadilho) se tornar um inferno ao aceitar o convite de uma “Mulher Magra” para acompanhá-la em um acontecimento sobrenatural em Veneza.

Duvidando de si mesmo ao presenciar o que seria seu primeiro contato com o outro lado, o professor ainda tem que lidar com o assustador desaparecimento da filha de 12 anos, que o acompanhou na viagem com a pretensão de aproveitar apenas a viagem.

Impossível não associar a premissa do livro a outros best-sellers. Porém, o que destaco como os dois principais trunfos em O Demonologista seja a forma engenhosa com qual o autor tratou o sobrenatural no enredo. Fugindo dos clichês do gênero, Pyper deixa explícito em pouco mais de 300 páginas que a eterna luta ocorre não fora, nem em lugares, mas dentro de cada um, mas precisamente em nossa mente.

“O Anticristo virá portando armas de persuasão, não de destruição”… “A Besta não se erguerá das águas, mas de dentro de vocês. De cada um de vocês, um de cada vez. E de uma maneira adequada as suas próprias dúvidas, frustrações. Sua dor.”

O Demonologista já é o sexto romance de Pyper e talvez por isso mesmo, o autor apresenta uma escrita inteligente e sofisticada, permeando a narrativa com simbolismos e referências. Uma leitura que desperta a curiosidade, não só pelo enredo em si, mas também pelas suas entrelinhas.

Detalhes que são trabalhados paulatinamente e de forma crescente durante a narrativa, podem até deixar aquele leitor mais ávido por grandes acontecimentos e reviravoltas frustrado, mas que compensa e equilibra a proposta do livro. Pelas páginas de O Demonologista encontramos trechos e referencias a mitologia de Milton, como se fosse um local a ser explorado e descoberto, o leitor descobre e aprende junto com Professor Ullman.

Ao se apropriar de trechos do poema épico O Paraíso Perdido, Pyper faz da sua obra uma história original, mas também uma homenagem ao clássico. Um convite a conhecer mais sobre a obra do século XVII e todo o mito que a permeia durante todos esses anos. Aliás, a própria editora já aguça isso ao dispor no final do romance, uma breve biografia e resumo sobre criador e a criatura viva que é o poema.

“Nós”, começo fazendo o melhor possível para suavizar o tremor das minhas palavras.

“Você não quer dizer que seu nome é Legião, pois você é muitos?”

“Nós somos muitos. Mas você não vai encontrar ninguém”.

“Não estamos nos encontrando agora?”

“Não com a intimidade de alguém que você vai conhecer.”

“O Demônio?”

“Não o mestre. Alguém que se senta com ele.”

Já sobre o título como objeto, isso é destaque à parte. Capa dura com textura que lembra livros antigos, (até fitinha para marcar a leitura tem) daqueles que de tão manuseados e desgastados pelo tempo fazem dele um item de admiração quase velada. O acabamento (psicopata de qualidade) de sempre da DarkSide Books é um deleite aos olhos de qualquer leitor. Diagramação, tamanho, transição de capítulos intercalados com várias ilustrações do pintor francês Gustave Doré fazem dessa edição uma das mais belas no catálogo da editora carioca.

O Demonologista traz uma história subjetiva, com inúmeras possibilidades de interpretações que só enriquecem a obra com dinamismo e fluência. Uma narrativa que traz um final audacioso, mas autêntico diante daquilo que já havia sido explanado e explorado durantes as linhas do livro. Uma história elegante e por vezes intimidadora, que nos lembra de que o céu e o inferno podem estar simplesmente dentro de nós.

O Demonologista
Encadernação: capa dura
Formato: 14x21cm
Número de páginas: 320
ISBN: 978-85-66636-40-6
Autor: Andrew Pyper
Tradução: Cláudia Guimarães
Editora: DarkSide®

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Leandro de Matos

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