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Por meios de diversas ações, que visavam romper os paradigmas em torno do comportamento sexual da década de 60/70, nossa mais recente revolução sexual teve seu estopim com a criação da pílula anticoncepcional, que dentre outros objetivos, buscava a prevalência do desejo individual sobre as convenções sociais do período, levantava a bandeira da igualdade de gêneros e reclamavam a tolerância para a homossexualidade, à liberdade sexual e a nudez.

A História é por vezes redundante e quase de forma cíclica, descobrimos que houve outra revolução, essa primeira revolução sexual obviamente não tinha os mesmos meios, mas se buscava o mesmo fim: a aceitação do sexo como algo natural e universal ao ser humano.origens_do_sexo_CAPA_lombada34mm.pdf

O período que abrange o fim da Idade Média até meados do século XVIII, foi de extrema importância para a modificação, aceitação e entendimento daquilo que era relacionado ao sexo. Tomando duas décadas de estudo, o historiador e professor de Oxford, Faramerz Dabhoiwala, escreveu um dos livros mais interessantes e singulares sobre o tema. As Origens do Sexo, publicado pela Biblioteca Azul, selo da Globo Livros é um relato apurado e factual sobre como o comportamento sexual do Império Britânico do fim do século XV em diante, fora responsável pela criação de políticas públicas para cuidar do ‘tema’, pela a autonomia e supervisão da Igreja e do Estado perante o assunto e que dentre outras coisas, germinou e culminou em um dos maiores (se não o maior) movimento cultural da História, o Iluminismo.

Em 1650, o adultério era pecado capital. A fornicacão fora da sagrada instituição do matrimônio, era perseguida por todos os cidadãos que se intitulavam ordenadores da ordem e dos bons costumes. Expressões públicas de afetos, mesmo entre conhecidos, eram interpretados como lascívia. Jovens apaixonados usavam a promessa mútua do casamento, para aliviarem seus desejos latentes e cônjuges, se desdobravam para tentar viverem suas pretensas aventuras extraconjugais.

Dentro desse contexto, praticamente tudo com relação ao sexo era proibido, exceto a monogamia. Uma visão deturpada do início da Idade Média colocava a mulher como a “porta de entrada do inferno”. Tratada e retratada com inferioridade, naquela época era credita ao feminino a responsabilidade pela ‘queda’ do homem. Centenas de mulheres foram espancadas, humilhadas e até mutiladas por desafiarem de alguma forma a ordem estabelecida pela Igreja e formalizada pelo Estado. Homens também, mas não mesma proporção e volume. Tantas outras perderam a vida, por praticarem esses ‘atos libidinosos’, mesmo sendo de forma consensual. Aliás, permissividade era algo bastante subjetivo naqueles dias. O estupro era algo corriqueiro e até incentivado, a prática era comum por meio de senhores que subjugavam suas criadas com a prerrogativa de patrão x criado. A teologia, a filosofia e até a biologia, foram áreas atuantes, para bem e/ou para o mal, nessa perseguição coletiva ao sexo.

Na leitura do tomo de quase 700 páginas, temos descrições e anedotas curiosas, e principalmente espantosas sobre como o sexo era definido naquele tempo. No início do livro, Faramerz conta que fim levou a um casal solteiro que praticou sexo sem serem casados e que dessa relação tiveram um filho. Por essa ‘transgressão’, foram despidos da cintura para cima e amarrados a carroças, foram acoitados em tons de desfile de uma cidade a outra. A criança? Não existe registro dela, após o julgamento dos pais. Não existia moralidade, nem senso comum. As mentes daqueles dias acreditavam que o orgasmo feminino estava estritamente ligado a concepção e com pensamentos assim, outros causos parecidos foram registrados.

“…os sentimentos sexuais não eram de forma alguma um bem, mas sim uma punição infligida por Deus a Adão e Eva e seus descendentes, como uma marca indelével de seu estado pecaminoso e corrompido. Afinal, a luxúria tinha um incomparável poder de sobrepujar a razão e a vontade humana: quando excitados, homens e mulheres não podiam nem mesmo controlar as inquietações de sua própria genitália.”

Há verdadeiras ‘pérolas’ ditas por libertinos daquele período, eles viviam e pregavam o machismo e a superioridade sobre as mulheres. Elas eram propriedades (do pai ou do marido). Thomas Webbe, pastor do vilarejo de Langley Burrell, montou uma residência para sua terceira esposa e nela ainda viviam a sua amante, o marido dela e outros casais em livre comunhão carnal. Ao ser preso e julgado por essas contravenções, ele afirmou que “não existe céu senão as mulheres, nem inferno senão o casamento”. Um dos casos mais absurdos descritos no livro foi à história da jovem Mary Latham, que foi perseguida, julgada e sentenciada a morte por enforcamento, por conta de uma etílica conversa de bar. Mary só tinha 18 anos.

As Origens do Sexo se firmou, pelo menos pra mim, como uma das mais instrutivas e esclarecedoras leituras dos últimos meses. A edição publicada pela Biblioteca Azul faz jus ao teor da obra, trazendo um volume caprichado esteticamente e que conta ainda com mais de 50 páginas coloridas, com imagens e gravuras que retratavam o pensamento e comportamento da época com relação ao sexo. Um livro ambicioso em sua proposta e fascinante por seu conteúdo, que preenche uma lacuna histórica de aparente ignorância. Uma época onde se inverteu o sentido de público e privado, de sacro e mundano, de consensual e ilícito.

Ao fim da leitura fica a impressão que em alguns momentos, a História realmente se repete, formando padrões e pela observância do que temos atualmente em nosso país e em outras culturas (extremistas e negligentes), o comportamento humano em relação ao sexo parece estar caminhando a passos largos para mais uma revolução sexual.


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Leandro de Matos

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