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A DarkSide Books mais uma vez nos presenteia com outra história fascinante do sobrenatural, dessa vez no romance A Noiva Fantasma. A história narra a trajetória da jovem Li Lan que vivia de forma modesta com o seu pai, sua Amah e dois criados; sua vida era pacata até seu pai vir falar com ela sobre uma proposta de casamento de uma das famílias mais ricas da região de Malaia, a família Lim. O problema não era a proposta, mas sim o noivo Lim Tian Ching, o único filho dos Lim. O fato é que o suposto noivo estava morto.

“Certa noite, meu pai me perguntou se eu gostaria de me tornar uma noiva fantasma…”.

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Todo o problema começa quando o noivo morto começa atormenta a jovem Li Lan em seus sonhos. Li Lan resolve ir a um templo para que uma médium a ajude a se livrar do espírito de Lim Tian Ching, mas nada sai como o planejado e o espírito de Li Lan acaba saindo de seu corpo a deixando meio morta. E a partir daí que começa a aventura de Li Lan, que está entre os dois mundos: o dos vivos e o dos mortos. A autora cria todo um mundo sobrenatural dos mortos o que é bem fascinante. Ela transita com muita naturalidade e sempre explicando sobre os diversos costumes da cultura local, o que nos faz entender sobre a história do lugar.
O inicio da história já é bem estimulante. As indecisões de Li Lan quanto ao que deve decidir, pois se ela aceitar ser a esposa do fantasma a sua vida toda mudará, as implicações que isso causaria poderia trazer a infelicidade para ela, mas a segurança financeira para a sua família. Um dos fatos que mais chamam atenção na narrativa é a importância que a autora dá nos rituais fúnebres, que são muito bem detalhados e interessantes como um todo. A ligação que os vivos têm com os seus entes mortos é muito bela experimentação narrativa da autora. Isso tudo implica em como será a pós-morte do defunto. É muito curioso como é feita a troca de oferendas com o mundo dos mortos. Os rituais servem para enviar desde dinheiro a criados à moradia no mundo espiritual para o familiar morto. Aqueles que não recebem tais oferendas se transformam em espíritos famintos, pois não conseguem chegar à planície dos mortos.

“A luz invadiu meus olhos como um clarão, acostumada como estava com a escuridão, e comecei a ver que as paredes da passagem e o chão de pedra eram ásperos e inconstantes… Não parecia em nada com o corredor agradável que Fan descrevera.”

Além disso, ainda temos o conhecimento de como era a vida da mulher no século 19. Acompanhamos como é a convivência de Li Lan e como são suas crenças, mitos e a submissão da mulher, dentro de uma sociedade altamente patriarcal. Como as mulheres competiam entre si em eventos para demonstrar as habilidades domésticas, no intuito de se conseguir um casamento. Tudo é definido pelos interesses socioeconômicos, pois status e elevação social são algo essencial à vida dessas mulheres e seus respectivos familiares.

“Sabia que eu deveria me casar um dia – que se aproximava cada vez mais –, mas a vida ainda não estava tão dura.”

Li Lan passa por todos esses dilemas, e nos mostra ser uma personagem incrível. Muito fácil de amar. Muito doce e cheia de compaixão para os outros menos favorecidos. Outro ponto positivo são as tiradas de humor que o livro possui. Não tem como não se pegar rindo de vários trechos do livro, pois apesar de se tratar de um livro que tem um alto teor fúnebre, a melancolia passa um pouco longe.

“Quanta reclamação! Como você acha que vai conseguir um marido desse jeito? Não é como se eu estivesse sentado sem fazer nada sabe?” Eu podia perceber o tom de divertimento em sua voz, mesmo através dos resmungos.”

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O livro desenvolve uma mistura de romance sobrenatural e suspense e em determinado ponto, a fantasia entra também sem deixar de lado a ação e a fluência da história. Quando Li Lan decide, enfim, visitar a planície dos mortos com a ajuda de um fantasma que insiste em sugar o QI de seu amado (QI é a força vital da pessoa), ela encontra Fan, uma fantasma que promete ajudar Li Lan em troca dela falar bem para as autoridades espirituais na hora do seu julgamento, pois ela pensa que Li Lan veio do paraíso, pois ela logo reconhece que Li não é um fantasma como ela. A autora incorpora criaturas hibridas na história. Seres que cuidam para que tudo esteja em ordem no mundo dos mortos. O que me lembra muito a cultura egípcia com seus deuses com corpos humanos e cabeças de animais.

“Apressei o passo, chegando perto d casa, até que parei bruscamente. Na porta da frente, guardando-a, havia um demônio com cabeça de boi.”

E não teve como não comparar a história com o filme A Viagem de Chihiro. Tudo me fez lembrar, desde a estadia de Li Lan trabalhando numa mansão de determinados espíritos ricos, ao relacionamento que tem com Er Lang, assim como Chihiro e Haku. Outra curiosidade é como a família manda pertences para o além, eles queimam desde casas de papel e dinheiro até criados para os seus entes. Dependendo do que a família queima para o ente falecido, ele pode ter uma vida bem abastada do outro lado, até que chegue o dia de ser julgado. O que nos leva a crer que se você veio de uma família rica, continuará rico após a morte. Isso ferra com os pobres e desafortunados. Com Li Lan fora de seu corpo ela tem que entrar nos sonhos para conseguir que as pessoas queimem dinheiro fantasma para ela. E é aí que ela entra nos sonhos de Tian Bai que é o primo vivo de Lim Tian Ching,que por sinal é odiado pelo o defunto desde que este era vivo.

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Outro fator relevante é que se Li Lan não está morta ela tem que voltar ao corpo, pois se isso não ocorrer, ela morrerá. O que faz a história entrar num tom de urgência para que Li Lan retorne ao seu corpo físico. Outro personagem que sem dúvida traz uma vivacidade a história é o misterioso Er Lang, que vez ou outra ajuda Li Lan. O seu jeito sarcástico deixa tudo mais leve. Er Lang é quase uma pedra no sapato de Li Lan. Ele é enigmático, fascinante e muitas vezes rude e ainda sim apaixonante. Quando questionado por Li Lan sobre o chapéu de bamboo que Er Lang usa, o que faz com que seu rosto fique oculto ele responde.

“Não tenho culpa por ter nascido com uma aparência tão extraordinária. Mas chega de falar de mim.”

Er Lang trabalha para as autoridades espirituais, é como se ele fosse uma espécie de detetive post-mortem, pois nem depois de mortos os espíritos se redimem. A corrupção chegou até os planos astrais. Tem-se dinheiro, tem gente subornando e gente pra aceitar o suborno. A planície dos mortos tem um corte para julgar os mortos e claro que seus juízes são um tanto suscetíveis a essas práticas nada cristãs. Por que parar de subornar depois de morto, não é? Se eu tenho dinheiro vou gastar e se estou morto vou esbanjar.

“Ele está morto? Porque não seguiu para outro lugar? Para as cortes do inferno, ou seja, lá qual for o próximo passo.”

A nossa Li Lan não é nem de longe uma mocinha chata. Ela é esperta, ela é sonhadora, ela vê o lado romântico das coisas, mas não é boba. Enquanto umas estão presas em triângulos amorosos, Li Lan fez a vibe “cada um no seu quadrado”. Sim ela explorou outra forma geométrica para o seu romance. Afinal pra que uma opção se tem três? Outras procuram um e ela tem três? Que injustiça! E esse trio de ouro é composto por um vivo Tian Bai, um morto Lim Tian Ching e uma criatura indefinida Er Lang. Cada qual com seus problemas e autenticidade. Por aí já se vê que de tola Li Lan não tem nada. Não é por que ela é sonhadora que é uma mocinha trouxa.
Apesar de se encontrar perdida (soou estranho isso), ela sabe muito bem se situar. O fato é que Li Lan tem muita coisa pra decidir. Ao entrar na planície dos mortos ela descobre coisas sobre sua família. Todos têm podres afinal que família não tem não é? E claro ela se torna uma espiã Junior de Er Lang o convencido. O mundo dos mortos se torna bem mais animado que o dos vivos. A maneira como a autora o criou foi de uma exímia astucia. Já que ninguém volta pra contar como é, ela resolveu criar um. E a sua criação foi magnífica.

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Não é nem preciso imaginar o quanto a edição está belíssima, em capa dura e com uma ilustração encantadora. Dentro também temos umas folhas para que possamos arrancar sem pena (tenha pena não arranque, faça uma cópia), enfim essas folhas são para fazer origamis de Tsuru (reza a lenda que se fizer 1.000 desses pássaros você tem direito a um desejo). Outro fator importantíssimo foi à tradução. Leandro Durazzo merece os parabéns pelo trabalho muito bem feito e pelas notas que ele nos dá, ajudando a compreender alguns termos sem a necessidade de sair pesquisando. Este exemplar está na minha lista dos favoritos.
YANGSZE CHOO é descendente de malaios. Formou-se na Universidade de Harvard e ocupou vários cargos corporativos antes de escrever A noiva fantasma, seu primeiro romance. Ela adora comer, ler e aprecia fazer ambas as coisas ao mesmo tempo e com frequência. Mora na Califórnia com seu marido e os dois filhos, além de um coelho. Saiba mais sobre em sobrea autora no site: www.yschoo.com

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Título: A Noiva Fantasma
Título original: The Ghost Bride
Autor: Yangsze Choo
Tradutor: Leandro Durazzo
Editora: DarkSide
Ano: 2015
Gênero: Literatura norte-americana,Ficção,Fantasia
Páginas: 360
ISBN: 978-85-66636-27-7 (capa dura)


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Jordana Martins

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