Ao longo de Maio de 2013, até o terceiro semestre de 2014, o cantor de rock americano Marilyn Manson, produziu e finalizou seu nono álbum de estúdio, The Pale Emperor. Enquanto a banda que o acompanha sofria alterações com a entrada e saída de instrumentistas, Manson durante esse período participou de séries (Californication, Eastbound & Down e Sons of Anarchy) e ainda colaborou no vocal de uma trilha destas.
Categorizado pelo próprio cantor como “cinematográfico”, Manson disse em entrevista que se inspirou no filme de David Lynch, Twin Peaks: Fire Walk with Me para ajudar na composição das faixas e ainda complementou, que o disco teve bastante influência do blues (?!). Abandonando um pouco as composições que traziam metáforas existencialistas e transcendentais, o cantor ainda afirmou que se deixou levar pelas melodias das faixas e pelo tom do disco.
Exageros à parte de um ex-jornalista que escrevia críticas de discos de rock dos anos 80/90, ou não, o fato é que The Pale Emperor, soa mais do mesmo na carreia do roqueiro.
Cada vez menos industrial. Sem grandes faixas. Sem refrões de impacto.
No disco de 10 faixas, que será lançado essa semana nos EUA, mas já se encontra disponível por streaming pelo Rdio, o cantor não arrisca, não há experimentação musical e não há nada de novo. Talvez cansando de se reinventar como músico, Marilyn Manson nos últimos quatros discos busca encontrar um tema, um sentido para esses trabalhos, que poucos se destacam em comparação ao tríptico composto pelos álbuns Antichrist Superstar (1996), Mechanical Animals (1998) e Holy Wood (2000). A trilogia de discos que trata sobre a ascensão e a queda de uma figura chamada The Worm e traz em suas composições, traços biográficos do cantor e detalha sobre ícones e aspectos da cultura americana.
The Pale Emperor
Em The Pale Emperor, Manson soa cansado. Aliás, ao vivo então é melhor nem entrar nesse pormenor. Ao longo de seus excessivos 46 anos, seus vocais nesse trabalho se destacam mais pela potência perdida, do que pelos efeitos posteriormente adicionados que no disco soam eficazes, mas no palco…
O disco abre com Killing Strangers, uma canção que fala sobre armas e destruição. Apenas, mediana. A segunda é Deep Six, o mais recente single do trabalho. A faixa que um traz um ritmo vibrante, por sinal, é uma característica dos recentes álbuns do artista. Uma faixa que destoa do disco, feita para especialmente (e exclusivamente) ser um single. Como é o caso de We’re From America, No Reflection e Heart-Shaped Glasses, dos discos anteriores.
Deep Six, teve seu videoclipe dirigido pelo artista surrealista, Bart Hess:

Third Day of A Seven Day Binge possui uma execução precisa. Lembrando o clima do seu disco mais pessoal, Eat Me, Drink Me de 2007. Sim, uma das melhores dos disco. As seguintes, The Mephistopheles of Los Angeles e Warship My Wreck são facilmente descartáveis. São diferentes entre si, óbvio, mas são em comum ao serem aquele tipo de música onde toda a execução culmina em um refrão (até marcante), mas a faixa como um todo, é plenamente dispensável em uma playlist.
Slave Only Dreams to be King é uma das, ou talvez a mais industrial do disco. Uma faixa que se destaca por si só. Iniciando sua execução com um discurso retirado do ensaio de James Allen, “As a Man Thinketh” de 1902, Manson faz dessa a mais subjetiva faixa do disco ao entoar o refrão: “Você é o que você bate”.
Com uma linha de baixo marcada e uma bateria ritmada, The Devil Beneath My Feet é outro padrão encontrado nos últimos discos do roqueiro. Músicas em três atos, refrão fácil e curto com letras subversivas e niilistas, características essas tão presentes nos primeiros álbuns. Nessa ele diz “Não quero seu Deus e seu poder superior… pelo menos eu sei que onde quer que eu vá, eu tenho o demônio debaixo dos meus pés… É melhor ser acusado de roubar Pedro, do que culpado por pagar Paulo”.
Quase como um poema (a faixa tem apenas cinco frases), Manson segue cantando Birds of Hell Awaiting como um cântico, um mantra infernal. A execução da mesma segue com uma melodia obscura e acordes que vão descendo de tons, o que dão um clima sombrio a faixa.
Birds of hell awaiting
With the wings on fire
This ain’t no phoenix, baby
It’s your death desire
This is your death desire
Pássaros do inferno esperando
Com as asas em chamas
Isso não é uma Fênix, baby
É o seu desejo de morte
Esse é o seu desejo de morte
Tema de abertura da série que trata sobre a perseguição “às bruxas” do século XVII do povoado de Salem, Cupid Carries a Gun, a nona do disco é a faixa compensatória do disco. Marilyn Manson em seu melhor estilo:
Bata os tambores da bruxa para mim Os tambores de bruxa Melhor rezar pelo inferno, não pelo aleluia.
Apenas ouça.
O álbum se encerra com Odds of Eleven, com um estilo à la Holy Wood, a faixa traz uma sonoridade lenta e compassada. Destacada pela entonação quase desesperadora que Manson se permite nos atos finais da canção.
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The Pale Emperor foi uma audição típica e estranhamente familiar. Com o anúncio do lançamento desse disco, ficou a sensação de que, dessa vez viria algo novo de uma artista que de forma estética e musical já teve como uma das suas principais características, a capacidade de se reimaginar a cada trabalho.
Um disco simples, sem peso e desinteressante, que vai render uma, duas ou três audições, no máximo. Os singles e algumas faixas em especial se sustentam sozinhas. Um disco que apresenta um som que para os fãs mais antigos pode ser o certificado, que Manson perdeu a mão, que toda a teatralidade se perdeu, junto com a criatividade das composições e originalidade das canções. Um disco que em sua totalidade é mais do mesmo.