E por incrível que pareça, mesmo com toda a preparação da promo, este episódio de Doctor Who não me entusiasmou no mesmo tanto que os anteriores. Talvez seja o fato de minha formação em História me deixar mais exigente com relação aos enredos que retornem no tempo. E a diva de Crimson Horror não foi Clara, Madame Vestra ou mesmo Jenny (muito embora ela tenha me deixado boquiaberta na cena em que ela enfrenta todas aquelas pessoas de uma só vez), e sim Ada, cujo coração e piedade foram fundamentais para salvar o Doctor.

You could be my secret, my special monster.

-Ada Gillyflower

Pode parecer algo ofensivo essa frase com a qual ela se dirigiu ao Doctor porém, quando entendemos quem é Ada e sua relação com sua mãe, a terrível Mrs. Gillyflower, entende-se que, ao contrário da mulher que era a vilã do episódio, ela não via (insira a ironia aqui, porque ela é cega) a imperfeição, mesmo quando tal era vista nela.

Perhaps was my own sin, the blackness in my heart that my dad saw in me.

-Ada Gillyflower

Sem que sua história precise ser contada nos mínimos detalhes, percebemos que ela era rejeitada por seus pais devido à sua deficiência, algo que é marca do Positivismo, pensamento sociológico dominante no século XIX, que trata a sociedade como um “corpo” e fala em “doença” e “saúde”. Por isso é palpável perceber como parece natural à Mrs. Gillyflower tratar a própria filha como se fosse nada e inclusive usá-la em seus experimentos, como se fosse apenas um ratinho de laboratório que pode ser descartado com facilidade, assim como ela fez na cena em que Ada lhe confessa o “erro” cometido ao salvar o Doctor de seu destino.

Do you not yet understand that could be no place for people as such as you?

-Mrs. Gillyflower

Não quero ficar muito tempo pensando nisso, se foi proposital ou totalmente por acidente o uso de tal pensamento. Mas, independente disso, parabenizo o uso sublime no episódio.

E a relação dela com o Doctor foi muito lido e bem trabalhado em Crimson Horror. Não somente o fato dela tê-lo salvo, mas a cena linda em que eles conversam e ela coloca seus temores sobre a rejeição de sua mãe. Foi uma cena que quase me levou às lágrimas. Depois o Doctor deixou de ir atrás da Mrs. Gillyflower, por medo que ela matasse Ada. E a cena final, com aquele adeus que deixou um gosto de “quero mais” e a promessa contida em sua frase:

You know, I think you will be just splendid.

-The Doctor.

Mesmo um episódio que não causou surtos em mim trouxe essa abordagem que muito me agrada, sublime e discreto, assim como Doctor Who consegue sempre fazer.

 

Considerações finais:

    • Clara não teve muita função nesse episódio, a não ser o momento em que jogou a cadeira na máquina da Mrs. Gillyflower;
    • Precisa mesmo falar todo santo episódio do quanto Clara é especial? Moffat, você vai cansar a personagem desse jeito;
    • Jenny  é maravilhosa, mas ela funciona mais quando Vastra não fica tanto tempo longe dela;
    • Strax funcionou muito bem como o escape cômico do episódio. E a parte que ele atira na Mrs. Gillyflower foi genial. Aliás, mérito para Crimson Horror foi que todos tiveram papéis fundamentais em derrotar a vilã;
    • Mr. Sweet, o a tal sanguessuga era realmente muito nojento;
    • Não foi muito fácil o modo com que as crianças que são cuidadas por Clara descobriram sobre as viagens no tempo? E como elas reagiram naturalmente, como se fosse uma ida até a esquina;
    • O próximo episódio é o do Neil Gaiman. Estou mais do que pronta;
    • Trailer do próximo episódio:

http://www.youtube.com/watch?v=ljQ3mcRpSl0