Odiando a vida adoidado

Odiando a vida adoidado

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Estava caminhando tranquilamente pelo shopping da minha cidade, era um domingo, por volta da hora do almoço, estava lotado de famílias almoçando e fazendo compras em algumas lojas que estavam abertas. Como moro no interior do estado de São Paulo, não são todas as lojas do shop que abrem aos domingos. Comprei uma casquinha do MC Donalds de chocolate, não gosto muito de chocolate e nem de sorvete, mas como está muito calor, fiquei com vontade e não resisti ao impulso de comprá-la. Fui até uma loja de brinquedos, na minha opinião, é a única loja que vale a pena gastar meu tempo, lá tem sabres de luz, vários capacetes, action figures, este estabelecimento é um terror para meus bolsos. Passei pouco mais de uma hora deslumbrado caminhando pelos corredores da loja, vendo o preço dos brinquedos que me interessavam, olhando com cara feia para as crianças – já disse pra vocês que eu odeio crianças? – e toda hora respondendo para as atendentes “não, obrigado, estou só olhando mesmo”.

Sai da loja e continuei caminhando por um dos dois únicos corredores existentes no shop de Franca e como todo bom gordo, sentei na praça de alimentação para comer um lanche no Subway. Eu sempre peço o mesmo, pão de 15cm de três queijos, com queijo dobrado, prato e cheddar, quente, maionese, barbecue, chipotle e pimenta calabresa, são as únicas coisas que eu como. Também pedi uma schweppes. Paguei e implorei pra moça do caixa me dar vários catchups, cara, como eu amo catchup. Fui para a mesa saborear esse delicioso fast food de pouco mais de sete reais.

Na segunda mordida ouvi alguns murmurinhos vindo da mesa ao lado, eu estava de fone, ouvindo a música Savior da banda Rise Against no meu ipod shuffle, que estava preso na minha no elástico de baixo da minha camisa. Dei pause na música e fiquei fui tentar entender o que estava acontecendo.

Um garoto de aproximadamente 15 anos estava de pé ao lado da mesa na qual um casal almoçava tranquilamente alguma coisa que compraram no restaurante Fogo Vivo, lembro disso porque é o único lugar que dá bandejas de madeira. Essa criança havia enfiado os dedos na refeição do Namorado – vou chamar o casal de Namorado e Namorada – colocado na boca e começou a xingá-los com palavras de baixo calão que eu nem suspeitava da existência. O rapaz, enfurecido, também tomou um gole do refrigerante, e não satisfeito, cuspiu na cara da Namorada e jogou o copo, ainda cheio, no chão. “Isso é uma merda”, “essa refeição está um lixo”, “vocês são uns bostas”, eram as frases que o garoto mais repetia.

Era aparente sua perturbação para disseminar o ódio, partiu para outra mesa pra poder criticar a roupa as pessoas sentadas em volta, mas por incrível que pareça, seus argumentos haviam acabados, voltou a repetir as mesmas frases: “Sua camisa é um lixo”, “essa calça é ridícula”, “vocês são uns bostas”. Ele não parou por ai, antes de colocar os fones novamente na orelha e dar play pra continuar curtindo Rise Against, fiquei observando-o enquanto passava por mais meia dúzia de mesas dando palpite na vida e comida de todos que estavam em seu caminho.

Faltavam poucos segundos para Savior acabar, e em seguida começou a tocar Harline Fracture. O lanche estava um pouco frio, mas a Schweppes continuava bem gelada. Após finalizar minha refeição me dirigi até uns banquinhos de madeira na área externa do Shopping Center, sentei e fiquei analisando o episódio que presenciei na praça de alimentação.

Aquelas cenas seriam inadmissíveis na vida real, aquela criança, provavelmente teria levado alguns tapas na cara, no mínimo, mas na internet existe a opção de você não mostrar a cara, tem um botãozinho escrito ‘postar como anônimo’ no qual evita que pessoas de verdade cresçam na vida.

Esse tipo de situação acontece diariamente com as mais diversas pessoas, que são atacadas por aqueles que dizem odiá-las, mas nem ao menos tem coragem de falar isso sendo eles mesmo, precisam de um perfil fake ou do anonimato para protegê-los. A falta de bom senso está contagiando toda superfície internética e devido a isso vim dar grandes e valiosas dicas:

  • Não gosta de comer alguma coisa? – Não coma.
  • Não gosto de certos estilos musicais? – Não ouça.
  • Não gosta de algumas pessoas? – Evite-as.
  • Não gosta de alguns lugares? – Não vá até eles.

Sei que são dicas básicas e soa ridículo dizê-las, mas podem acreditar, o número de pessoas que não conseguem fazer isso é muito grande.

Sei que a internet é um espaço democrático onde todas as pessoas podem ter voz ativa e em alguns casos até podem ser ouvidas, mas como na vida real, eu acho muito anti ético invadir o espaço dos outros para difundir seu ódio infundado. Nunca liguei para reclamações, sou um cara que estou sempre reclamando, nunca estarei satisfeito com nada, seja com comida, livros, namoro, qualquer coisa, sou exigente quanto a tudo e não canso de falar – escrever, na verdade. Mas meu código moral diz que tenho direito de fazer isso apenas nos meus veículos, onde a leitura é democrática, qualquer um pode ler, e também, qualquer um pode ignorar. A partir do ponto que invado o espaço de alguém para vomitar minhas frustrações pessoas e em anonimato, estou assinando e reconhecendo firma do meu atestado de inferioridade.

Não gosto e não digo o que as pessoas devem ou não fazer, apenas aponto as coisas que não gosto, cabe a cada um julgar se essas dicas são válidas ou não, e se mesmo assim ainda tiverem uma necessidade insaciável de entrar no espaço alheio para dizer o quanto você odeia algo, use argumentos convincentes e faça parecer uma crítica construtiva. ;D

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