O que te assombra? O que te faz querer voltar para as cobertas? O que torna o seus medos tão reais? É meio disto que se trata o livro O Menino que desenhava monstros do autor Keith Donohue, publicado pela editora que aposta no escuro Darkside books. Confesso que ao ver o título me veio à mente outro livro de premissa semelhante de outro autor, publicado por outra editora. O meu interesse veio disso. A curiosidade sobre o assunto se seria semelhante ao outro. E este se mostrou bastante diferente.

Monstros (55)

Jack Peter é um garoto de dez anos, com atitudes peculiares, foi diagnosticado com a síndrome de Asperger. J.P ou como seu pai insiste em apelidar Jip, não sai mais de casa há três anos, desde um incidente em que ele e seu melhor amigo Nick quase morreram afogados no mar. J.P. ficou cada vez mais recluso e avesso a contato pessoal. A vida dele se resume dentro de casa e seu circulo de amizades se estende até Nick Weller. O fato é que Jack tornou a vida de seus pais uma provação.

“É claro que eu não o odeio. Ele é meu filho. Mais odeio a maneira como nossas vidas mudaram. A síndrome de Asperger é uma coisa, mas o medo que ele tem da rua torna tudo mais difícil.”

Monstros (54)

O pequeno Jack vive preso num mundo dentro de sua cabeça. Ele vive a desenhar monstros. Isso não é nenhum problema, pois crianças adoram desenhar isso, o problema é que aparentemente os desenhos de Jack são bem mais do que só desenhos. Coisas estranhas começam a acontecer e criaturas estranhas começam a serem vistas pelas pessoas mais próximas a Jack, que são seu pai Tim, sua mãe Holly e Nick.

“… Tim não tinha certeza se aquilo havia acontecido, nem exatamente o que era aquela coisa que se assustara com o carro.”

Monstros (57)

Os problemas na família Keenan ficam cada vez piores com o aumento das ditas paranoias do filho. Jack não para de desenhar monstros. O garoto vem ficando agressivo ao ponto de seus pais cogitarem colocá-lo em um lugar para pessoas com transtornos. Isso deixa o garoto ainda pior, já que o mesmo escuta isso da boca de sua mãe, sem ela perceber que ele está observando os pais.

“Não quero mandá-lo embora, mas não sei mais o que fazer.”

No decorrer da trama conhecemos a senhora Tiramaku, apesar de pouco aparecer, é ela quem mais nos esclarece o que pode está acontecendo com J.P. A mãe dele começa a ter alucinações de um naufrágio. Nick também começa a ser atormentado em sua própria casa. Diversos fatos inexplicáveis vão acontecendo a cada capitulo lido, até compreendermos o que causa tudo aquilo. Alguns capítulos nós temos alguns segredos do passado revelados e como isto acabou interferindo na vida de Jack. Nem Nick suporta o amigo e esse é um dos fatos que mais tem ligação com os monstros de Jack.

“Seus pais o obrigavam a brincar com ele, mas Nick não queria, Nick queria ser normal.”

“Seu eu pudesse fugir, pensou, eu fugiria… E eu cortaria os laços. Eu me livraria dele para sempre.”

Monstros (43)O que te faz ficar refletindo sobre O Menino que Desenhava Monstros é a confirmação de que os monstros não estão somente na imaginação do garoto, mas que de fato eles existem e o porquê deles existirem. O medo de um garotinho transformado em realidade, que o atormenta e a seus pais e amigo também, pois eles contribuíram para que isso acontecesse. Vemos a insensibilidade dos adultos para com a criança. O modo como os pais tratam o filho, sempre querendo voltar ao passado quando o filho deles era aparentemente normal. A não aceitação do problema causa uma antipatia com os pais. Muitas vezes eles só pensam em como a vida seria mais fácil para eles se o filho deles fosse que nem o amiguinho, pouco se importando com o que o filho deles passa.

Monstros (49)As atitudes egoístas dos personagens fizeram com que eu os detestasse mais do que os amasse. Nenhum deles foi cativante, a história em si é muito boa, apesar de Keith Donohue arrastar a trama, que acaba em muitos momentos tornando-se chata por sua lentidão. O desfecho é surpreendente. A descoberta do por que os monstros de Jack se tornar real. É o fato de nossas mentes e alma estarem cheios que os nossos medos se tornam maiores e mais reais do que se é saudável. Apesar de tudo é uma história que assusta e que te põe para refletir. Do que nós temos medo? Que forma ele assumiriam? O fato é que nunca mais você olhará para o desenho de uma criança com os mesmos olhos.

“Enquanto não abandonarmos nossos medos e ressentimentos não encontraremos a saída do quarto escuro”.

Monstros (35)Sobre a edição, a Darkside Books é sempre primorosa. Capa dura com toque aveludado possui o seu marcador em fita e ótima diagramação. Ao chegarmos ao final do livro temos umas folhas em branco para possamos expor nossas artes, para fazer uma análise dos nossos medos. Obviamente que não tenho coragem para isso. A tradução foi feita por Cláudia Guimarães, a mesma tradutora de Golem e o Gênio publicado pela editora.

Keith Donohue é o autor do best-seller The Stolen Child, além de The Angels of Destruiction e Centuries of June. Seus livros já foram traduzidos para mais de doze idiomas. O Menino que Desenhava Monstros chamou tanto a atenção do publico que rapidamente teve os seus direitos vendidos para o cinema. O autor tem Ph. D em inglês pela Catholic University of America vive em Maryland. Saiba mais sobre em keithdonohue.com.

Monstros (36)Título: O Menino que Desenhava Monstros

Título original: The Boy Who Drew Monsters: a Novel

Autor: Keith Donohue

Tradução: Claudia Guimarães

Gênero: Ficção,Contos de Terror

Editora: Darkside

Ano: 2016

Páginas: 256

ISBN: 978-85-9454-001-0 (capa dura)