Respeitável público sejam bem vindos a mais uma fantasia sombria e apaixonante que a Darkside Books nos apresenta: O Circo Mecânico Tresaulti, sentem-se em seus lugares e curtam mais um sucesso de bilheteria ou seria melhor mais um sucesso das livrarias? Enfim senta que lá vem história. Estamos falando de mais um exemplar que compõe a coleção intitulada Darklove.
O mundo ainda está tentando se recuperar da sua última grande guerra, as pessoas sobrevivem da melhor maneira que podem, enfiados na tristeza e destruição deixadas pelas bombas e armas que compõem as guerras. E no meio de um cenário tão desolado, eis que surge uma trupe circense que passa pelas cidades devastadas trazendo alegria e fascínio aos sobreviventes.
Circo_(154)[1]
“A guerra fez o mundo parar.”
“Houve as bombas e a radiação que esvaziaram cidades inteiras, mas isso passou. Piores eram as guerrinhas que levavam todos de volta para trás das muralhas improvisadas de repentinas cidades-estados, presos demais a impasses para darem um passo para fora, um passo para frente.”
O picadeiro está repleto de artistas modificados mecanicamente pela dona do espetáculo todo a Boss, é assim que ela é chamada, se ela teve outro nome, o deixou para trás, assim como todos que no circo entram. A Boss tem um dom de reestruturar os corpos mutilados de seus artistas, todos acabam sendo modificados um dia, tornando-os uma mistura de humanos e máquinas uns pós-humanos por assim dizer. Os artistas do circo se tornam quase imortais, o tempo não passa para eles, mas ainda sim eles podem ser mortos.
Circo_(152)[1]
“Aqueles que entraram na oficina olham uns para os outros procurando sinais de idade que nunca aparecem.”
O espetáculo é único, pois além do fato de seus artistas serem uma mistura de ossos ocos e peças sobressalentes de cobre é provável que você só veja o espetáculo somente uma vez em sua vida, já que a possibilidade do circo passar pela mesma cidade durante uma vida humana é quase nula. O tempo não corre no circo como para aqueles que estão fora dele, é provável que aqueles que viram o espetáculo uma vez já não estejam vivos quando o circo um dia retornar. Se retornar.
Circo_(148)[1]
“O pessoal do Tresaulti não sabe os nomes desta ou de qualquer outra cidade. Boss não recomenda. ‘“ Nosso circuito é amplo demais’”,ela diz.’”Pode ser que não voltemos a uma mesma cidade durante a sua vida’”.
As criações de Boss são impressionantes, o seu velho companheiro Panadrome “Ele é apenas uma banda de um homem só com uma alma”, Little George que é o ajudante de Boss e ainda totalmente humano, pois Boss não deseja transformá-lo em sua oficina, mesmo ele insistindo. A temida trapezista Elena, sempre de mau humor e sempre mantendo a língua ferina afiada, Stenos e Bird os equilibristas do terror,pois o número que eles apresentam causa mais estupor do que alegria. Além do quê, o circo meio vive fugindo dos homens do governo, pois Boss sabe que se as suas criações caírem nas mãos erradas, mais guerras serão travadas.
Circo_(1)[1]
“Quando um garoto em especial vai ao circo e se esquece de aplaudir os acrobatas ou o homem forte por estar se perguntando se eles poderiam lhe ser uteis, ele é um homem do governo.”
Cada personagem possui uma história, cada um tem sua peculiaridade. Stenos e Bird são os que mais chamam atenção, pois ambos vivem uma relação constante de amor e ódio. Você nunca sabe se no fundo eles se gostam ou se querem matar um ao outro. Ambos têm uma obsessão pelas assas que foram de Alec. Elena sempre tenta evitar que as asas pertençam à outra pessoa, pois ela sabe que Alec não as aguentou e que é provável que ninguém as suporte, não é qualquer um que suporta o peso dos ossos mortos.
Circo_(135)[1]
“Ela aprendeu a lição com Alec”, disse Elena. “Você não sabe o que asas fazem a você, você nunca viu Alec no final”.
“Elena diz que elas a deixarão louca… É por isso que Boss nunca as deu a ninguém depois de Alec.”
“Eu não acho possível que eu fique mais louca”.
O Circo Mecânico Tresaulti, é uma viagem que passa entre a tragédia e o lúdico. Onde os seus personagens estão marcados a ferro com as tragédias que uma guerra causou. Vivendo em um espetáculo itinerante que nunca acaba. Todos largaram para trás as suas antigas identidades, todos foram modificados, mas o tempo continua parado num ciclo de vida chamado picadeiro de circo. A Boss os mantém vivos e unidos numa espécie de serventia. O circo é uma família unida pelas desgraças e o medo de que se ficarem longe da sua força motriz Boss, eles irão padecer.
Circo_(159)[1]
“Nenhum deles perambula muito longe do acampamento; mágica profunda assim não deve ser testada, ninguém quer ser o primeiro a cair morto por ter saído de perto do olho vivo de Boss.”
A escrita do livro é bem peculiar, ela não foi feita de forma linear. E talvez isso cause um pouco de dificuldades com o leitor. Eu apreciei, deixa aquele gostinho de surpresa a cada capitulo. O modo como Genevieve escreve é maravilhoso, pelo menos pra mim foi bem dinâmica, mesmo com as disparidades. Alguns reclamam deste estilo de escrita, eu particularmente acho bem interessante e mexe bastante o cérebro, tirando a pessoa um pouco da zona de conforto. Além da história isso me cativou bastante. Os personagens são tão sublimes, sofridos, tão cheios de suas peculiaridades. Uma história envolvente, sem um tempo certo decorrente. Não sabemos se é escrita no passado, no presente ou num futuro talvez não tão distante, mas é cativante. Dá até uma vontade partir com o circo.
Sobre a edição, bem eu tenho a edição antiga, mas que, diga-se de passagem, é muito bela também. Cheio de ilustrações de Wesley Rodrigues, para que os personagens não fiquem só na nossa imaginação. A capa nova com certeza arranca suspiros, mas a primeira edição é linda e contém as mesmas ilustrações da nova, então tanto uma como outra são incríveis. A tradução foi feita com maestria por Dalton Caldas. Para Darkside Books fica os parabéns por mais uma boa história publicada e por mais uma edição digna de colecionador.
Circo_(163)[1]
Genevieve Valentine já participou de várias coletâneas de novos autores e antologias ao lado de autores consagrados como Max Brooks, Kelly Link, Mira Grant e Joe McKinney. O Circo Mecânico Tresaulti, seu primeiro romance, ganhou o Crowford Award 2012 e foi indicado para o Prêmio Nebula. O conto “Ligth on the Water” foi indicado ao World Fantasia Award 2009 e outro conto,”Things to Know about Being Dead”,foi indicado ao Shirley Jackson Awards 2012. Contribui com sites de cultura pop e é amante insaciável de filmes B.
Wesley Rodrigues é animador, ilustrador e quadrinista. Dirigiu Faroeste: um Autentico Western (Melhor Curta Brasileiro Júri Popular,Anima Mundi 2013),O Orgro(2011) e Pinga com Sakê(2009),ambos também premiados. Ilustrou diversos livros,entre eles O Fantasma de Canterville (LeYa,2011).É autor da HQ Luiz Gonzaga – Asa Branca – O Menino Cantador(Retina78/Funarte,2012),com Maurício Barros de Castro.
Circo_(167)[1]

Título: O Circo Mecânico Tresaulti
Título original: Mechanique: A Tale of the Circus Tresaulti
Autor: Genevieve Valentine
Tradução: Dalton Caldas
Ilustrações: Wesley Rodrigues
Gênero: Ficção Cientifica
Editora: Darkside
Ano: 2013
Páginas: 320
Tamanho: 14×21 cm