O relato clássico de como ser discreto e casar por amor pôde levar uma dinastia de 300 anos ruírem em um brutal assassinato.
Desde criança me interessei pelos Romanov, eu poderia ter me interessado pelos membros da “realeza do Brasil”, mas eles não tiveram um fim tão trágico quanto esta família em particular. Fui apresentada ao nome Romanov num filme de animação Anastácia. Claro que era pura ficção com um fundo de verdade, o que despertou o espírito de pesquisadora em mim. Foi então que comecei a pesquisar sobre o que de fato havia acontecido a família, o que me deixou despedaçada. E então veio para as minhas mãos este exemplar publicado pela Rocco que me fez conhecer ainda mais esta família.
Este relato minucioso da vida dos Romanov nos faz mergulhar nos momentos mais felizes e sombrios desta dinastia que por tantos anos governou a Rússia e que foi expurgada de maneira tão atroz por revolucionários que tão pouco modificou a situação dos menos favorecidos na Rússia. Robert K. Massie é o historiador que nos coloca dentro da vida tão privada do último Czar, czarina, grão-duque e grã-duquesas Romanov.

Nicolau e Alexandra (1)

Nicolau II era filho de Alexandre III, o czar antes dele e como filho mais velho ele seria o herdeiro ao trono. Alexandre sofria do mesmo mal que todos sofrem, de achar que a morte tardará a levá-lo. Com este pensamento o czar Alexandre III nunca preparou seu herdeiro para o trono e por ironia do destino o czar veio a adoecer e padecer muito cedo. Deixando Nicolau arrasado tanto em termos emocionas como em termos profissionais.
“Sandro o que vou fazer? Ele exclamou pateticamente. ’ O que irá acontecer comigo, com você, com Xenia, com Alix, com mamãe, com toda a Rússia? Não estou preparado para ser czar. Nunca quis ser. Não sei nada desse negócio de governo. Não tenho ideia de como falar com os ministros. ’”.
Pela falta de preocupação do pai, Nicolau era um bon-vivant (um playboy). Nicky (comumente chamado por Alexandra) estava mais preocupado em se divertir e viver os romances da sua juventude como o que teve com a bailarina Matilde Kschessinska. A única coisa pela qual Nicky queria mesmo lutar era pela a princesa germânica Alix, filha da princesa Alice e neta da Rainha Vitória. Os seus pais eram piamente contra a união, preferiam que Nicolau casasse com alguém mais importante, pois ele seria o próximo czar, mas Nicolau amou Alix desde que a viu pela primeira vez.
“Meu sonho é de me casar algum dia com a princesa Alix H. Amo-a há longo tempo,e ainda mais forte e profundamente desde 1889,quando ela passou seis semanas em São Petersburgo. Por muito tempo resiste ao sentimento de meu mais caro sonho se realizasse.”

Nicolau e Alexandra (7)

 

Casar por amor não era algo comum e os pais do então czarevich eram fortemente antigermânicos não tinham a menor intenção de permitir a união. O comum era casar por interesses, mas com a doença repentina do czar fez com que fosse concedido a Nicolau o prazer de pedir a sua amada em casamento. Nicolau conseguiu o que queria, só faltava à conversão de Alix na religião Ortodoxa. Nascida princesa Alix de Hess se tornou Alexandra Feodorovna. A futura união não começou bem, pouco tempo após o noivado o czar Alexandre III morreu e uma semana após o enterro Nicolau casa-se com Alexandra.
Um ano após a morte de Alexandre III, Nicolau tornou-se oficialmente o novo czar de todas as Rússias. Foram anos de glória e pura felicidade. As crianças começaram a nascer. Primeiro vieram às quatro meninas e quando já não havia mais esperanças nasceu o czarevich Alexei e isso foi o inicio do declínio Romanov.
“Além das batalhas perdidas e dos navios afundados… A Rússia imperial fora contemplada com o minúsculo defeito no corpo de um menino. Escondida da visão do publico, dissimulada em rumores, agindo no interior, essa tragédia oculta mudaria a história da Rússia e do mundo.”

Nicolau e Alexandra (5)

Alexei nasceu hemofílico, esta doença impede que o sangue estanque normalmente. Então qualquer pancada que ele levava era um martírio sem precedentes para toda a família. A pobre criança cresceu privada de uma vida normal. Não podia correr, nem andar de bicicleta, montar a cavalo e nem nada que o pudesse machucar. A superproteção dos pais era alvo de constantes mexericos. Os pais com medo e receio do que pudessem dizer a respeito da doença do czarevich preferiram se calar e nunca mencionar a doença do menino. Todos que sabiam eram proibidos de comentar algo. Essas atitudes altamente recatadas da família os deixavam alvos fáceis para as mais diversas perfídias espalhadas não só pelo povo, mas pelos próprios nobres que os cercavam.
“Os membros da família imperial se ressentiam do modo como a imperatriz parecia barrar sua presença no palácio do czar… A família se indignava. Grã-duquesas imperiais,irmãs ou filhas de um czar bufavam,furiosas que uma mera princesa alemã pudesse tentar se interpor entre elas e suas prerrogativas.”
As crises da criança eram tão ferozes que não só ele sofria, mas toda família caia junto em desespero e dor por nada poderem fazer a respeito. A czarina era a que mais sofria depois de Alexei. Durante as crises ela também adoecia e ficava acamada. A leveza dos primeiros anos foram-lhe sugados em poucos anos. E já que os médicos pouco podiam fazer a czarina se fixou na fé para que Deus pudesse ter piedade não só de Alexei, mas de toda família. E foi então que surgiu o algoz Gregório Rasputin.
Nicolau e Alexandra (4)“Os olhos de Rasputin eram a base de seu poder, mas quando lhe falhavam, ele era rápido em usar sua língua persuasiva.”

 

Rasputin vendo a fragilidade da pobre mãe se aproveitou disso para tornar a vida deles um pouco mais infeliz. Rasputin dito monge (só que casado, pois a fé ortodoxa permite) usava de artífices da palavra de Deus para manter a imperatriz sobre seu controle. Alexandra era pudica e ingênua demais para ver a duplicidade do starets (como também era chamado Rasputin) ou preferia ver só o que queria, pois era sabido da natureza libidinosa de seu tão adorado amigo. Em vista não se sabe o certo o que Rasputin fazia, qual era o seu dom ou artífices que ele usava, mas era fato de que muitas vezes as suas palavras obtiveram resultados favoráveis durante as crises hemofílicas do czarevich.
“A fatal influência daquele homem [Rasputin] foi a principal causa da morte daqueles que julgavam encontrar nele a salvação.”
O povo não sabia da doença do jovem herdeiro e muito menos do real papel de Rasputin. O que eles sabiam era da vida nada virtuosa que ele vivia e que era completamente ignorada por Alexandra. Rasputin fazia uma coleção de inimigos e por ser muito amigo da czarina levou não só seu nome, mas o dela para a lama e consequentemente a família imperial inteira. Alexandra sempre foi vista com maus olhos pelos russos. E até pela sogra a imperatriz viúva Maria.
“Minha pobre nora não percebe que está arruinando a dinastia e a si mesma.”
 Nicolau e Alexandra (6)
“Ela defendia Rasputin com tanto ardor que era difícil para o povo dissociar a imperatriz e o munjique. Se ela estava decidida a odiar todos os inimigos dele, não era de surpreender que os inimigos dele decidissem odiá-la”.
Fora os conflitos internos tinha a guerra. Nicolau II deixou o poder nas mãos da esposa e foi para o front de batalha. Sua amada era tão ignorante no papel de comandar um país quanto ele e também muito influenciável por seu amado Rasputin. Uma decisão errada após outra eram tomadas por conta dos conselhos do starets e mesmo com a sua morte nada conseguiu melhorar o total declínio da Rússia. O problema básico era a falta de comida e combustível. Com tanta gente na guerra poucos ficaram para cultivar nos campos. Bem ou mal Rasputin que era mias próximo do povo que o czar e o mesmo já havia avisado sobre isso. Uma das poucas petições sábias da czarina de mandar comida para o povo e ignorada por Nicolau foi feita pelo starets. As ferrovias entraram em declínio, os altos preços dos alimentos tornou tudo insustentável.
“E foi com essas escolhas, propostas por Rasputin, pressionadas pelas súplicas da imperatriz e incessantemente endossadas por sua ausência, que Nicolau perdeu o trono.”
O olhar cego, a facilidade de manipulação e o total despreparo fizeram do reinado do ultimo czar Romanov um completo desastre. Nicolau era um homem amável e tímido que amou demais sua esposa Alexandra, tímida e recatada, que não via maldade em quase ninguém. Suas decisões tomadas para não desagradar o seu amor acabaram por provocar uma revolução que pôs um fim trágico aos membros de sua amada família.
Nicolau e Alexandra“Sempre pronto a gostar de todo mundo. Nicolau esperava que as pessoas gostassem dele. Tanto quanto podia perceber por entre as camadas de bajulação e etiqueta que cercavam sua posição, as pessoas realmente gostavam dele.”
Este relato que traz os fatos minuciosamente destrinchados para os amantes de história como eu e principalmente para os interessados nos Romanov é uma preciosidade sem tamanho. Do meu ponto de vista o fim trágico da família poderia ter sido modificado não só pelas atitudes do czar, mas dos próprios assassinos que não tiveram o menor sentimento em massacrar uma família que em sua maioria era totalmente inocente dos fatos. O que dói não é só a morte em si, mas como ela foi feita e como a história difundida só veio à tona décadas depois. Tudo isso culminou para os acontecimentos revolucionários que culminaram na dissolução da autocracia e o surgimento da União Soviética. Onde Lênin que teve mais um papel de vilão do que libertador usou de seu recente poder para aniquilar a sangue frio a família Romanov.
Nicolau e Alexandra (3)“Por que Lênin triunfou, por que Nicolau fracassou, por que Alexandra colocou o destino do filho, do marido e do império nas mãos de um milagreiro itinerante, por que Alexei sofria de hemofilia? Esses são os verdadeiros enigmas desse conto histórico. Todos têm respostas. Exceto, talvez, o último.”
A Edição é belíssima, com letras em dourado e com a imagem do tão distinto casal real. A leitura é dinâmica e prazerosa, Robert nos dá a sensação de familiaridade com os fatos e pessoas descritas no decorrer do livro. É um livro extenso e com partes muito tocantes. Baseado em relatos e outros escritos da família. Um relato sensacional de como aconteceu realmente a grande virada história do século XX. Com a tradução maravilhosa de Angela Lobo de Andrade, o livro ainda possui diversas imagens dos principais personagens e uma árvore genealógica da família real russa e inglesa.
Robert K. Massie nasceu em 1929 nos EUA e dedicou boa parte de sua vida como historiador a um amplo projeto de pesquisa da dinastia Romanov. Entre suas principais obras se encontram a biografia de Pedro, o Grande, que lhe valeu o prêmio Pulitzer em 1981, e a de Catarina, a Grande, publicada no Brasil pela Rocco.

Nicolau e Alexandra (2)

Título original: Nicholas and Alexandra
Autor: Robert K. Massie
Tradução: Angela Lobo de Andrade
Gênero: Romance norte-americano
Editora: Rocco
Ano: 2014
Páginas: 607
ISBN: 978-85-325-2936-7 (brochura)