Manterei sempre.
Duas crianças órfãs compartilham um estranho e curioso laço. Ambas, usam seus respectivos dons com intuito de trazer alegria e esperança para aqueles que lhe cercam.

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Maria – A Menina das Espanhas – encontrada em uma floresta em meio a uma névoa que escondia mistério e fantasia é levada para viver em uma granja ao lado de senhoras que dividem os dias entre o trabalho e o rosário. Maria chama a atenção de todos por ser diferente. Por falar com a natureza, com o tempo, com o que possui vida ao seu redor.
Clara – A Menina das Itálias – encanta e fascina através do piano. Praticamente autodidata, o seu dom é a música. Por intermédio das notas e acordes de um piano, a garota transporta quem ouve sua música para o passado, para memórias há tempos esquecidas, para realidades onde o místico e o mundano são homogêneos.
“Sabem o que é um sonho? Não é uma quimera gerada por nosso desejo, mas um outro caminho pelo qual absorvemos a substância do mundo e temos acesso àquela mesma verdade revelada pelas brumas, escondendo o visível e revelando o invisível.”

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Ambas não sabem da sua importância dentro da harmonia e coesão entre os mundos. Compartilham dúvidas e receios daquilo que descobrem e aprendem gradativamente a cada contato, a cada nova canção.
A Vida dos Elfos é uma alegoria sobre a perda do mágico, do simbólico no mundo moderno, uma história que ao mesmo tempo em que aponta essa defasagem, elogia e homenageia a força da natureza e a beleza da arte.
Sua narrativa, no inicio um pouco rebuscada, pode estranhar o mais ávido leitor, mas livros assim são preciosos pela sua prosa e atmosfera figurativa e não literal. Ao tempo, sua prosa tomará um ritmo próprio, vivo e se tornará também personagem ao lado dessa história.

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Fragmentado e pautado pela cadência de eventos, o livro acima de tudo é harmonioso.
– Lembre-se dos relatos – ele lhe disse ao levantar – São a inteligência do mundo, deste e de todos os outros.
Nove anos se passaram desde o sucesso editorial de A Elegância do Ouriço – o romance vendeu mais de seis milhões de exemplares ao redor do mundo – livro em que a autora disserta sobre a vida, a morte e o prazer pela arte em paralelo à vida de alguns moradores de um condomínio na Paris atual.

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Dessa vez, Muriel Barbery se arrisca pela fantasia, mas sem deixar de lado, a elegância e o teor filosófico, características estas tão presentes em sua escrita. Mas sua proposta é satisfatória. A Vida dos Elfos é uma história fantástica que permeia o contemporâneo e o clássico do gênero.
Posso estar divagando, mas parece ser uma vertente literária, que autores contemporâneos enveredam por gêneros novos e ambiciosos, trazendo assim dinamismo a suas bibliografias. Muito provavelmente pela ascensão e consumo crescente da fantasia dos últimos anos, autores se prontificam em criarem as suas histórias; arquitetando assim mitos e contos próprios em face do que há de clássico e particularmente próximo do escritor.

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Muriel agora com A Vida dos Elfos e o Kazuo Ishiguro, com O Gigante Enterrado, por exemplo.  Fico imaginando Donna Tartt escrevendo algo parecido. Quem sabe?
A verdade é que a saga das Meninas, ainda terá uma sequência para finalizar sua jornada. Mas, a julgar do que já foi apresentado, a leitura dos acontecimentos futuros das duas parece bastante promissor.

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“Lembrem-se! Lembrem-se! Lembrem-se do destino que esmaga e ainda pede esmola das reminiscências pela maldição do amor que pereceu sob o aço”.
A edição cuidadosa publicada pela Companhia das Letras faz jus ao teor encantador do título. A capa possui ilustrações que remetem às particularidades das meninas e num tom acobreado, que fica como um esmero à parte. Destaque-se também a tradução, um texto limpo e bastante preciso para com a proposta e estilo do texto original.
A Vida dos Elfos possui uma narrativa que transita entre mundos, entre realidades; música e poesia transbordam do texto em suas mais de 290 páginas. Um enredo que nos lembra de que ainda existem lendas e criaturas que fascinam e assustam.

aaaaa5 - Cópia

Em uma entrevista, Muriel afirmou que a história não é uma parábola ou um conto fantástico. Apesar de conter elementos destes, cabia ao leitor decidir e interpretar algo.
Fiz minha parte e hoje tenho minhas convicções.
Às órfãs, a graça.