Zé do Caixão, ou melhor, José Mojica Marins é brasileiro. Isso é fato. E como tal, em momentos de dificuldade, faz da necessidade, uma oportunidade de se sobressair, de se superar.
Com mais de 50 anos de carreira, Zé do Caixão vai muito além das unhas gigantes, das maldições proferidas e a prova de toda a sua importância dentro e fora da história do cinema brasileiro, está impressa nas simbólicas 666 páginas de sua biografia que no final de 2015, ganhou uma edição com acabamento de luxo revisada e ampliada.

1966

Mojica se metamorfoseou em Zé entre os anos de 1963 e 64, período em que o primeiro trabalhava ajudando o pai em uma matinê da cidade e com o passar do tempo, acreditava que já sabia o suficiente para ser “professor de artes cênicas”.
Antes do sonho, aliás, do pesadelo que lhe serviu de inspiração para criar o Zé do Caixão, Mojica se passava como diretor independente, de cult e olha que ele não fazia filmes, mas sim arte em “fitas” e após justamente algumas dessas “fitas” fracassarem nas bilheterias, ele percebeu que não adiantava insistir em filmes de faroeste, romances e subgêneros. O público da época queria ver algo novo. Algum tipo de transgressão contra o pudico e recatado que permeavam as décadas de 60 e 70.
Assim sendo, Mojica partiu para o terror, gênero onde poderia explorar toda a sua veia criativa ao mesclar o erudito e o gótico em uma cena. Mojica falava para um público que não sabia direito o que consumia. Com o passar do tempo, Mojica foi aprimorando sua arte que sempre era grandiloquente e possuíam até premissas interessantes, mas esses trabalhos se perdiam entre a precariedade dos orçamentos e a vendetta da Censura.
Apesar de tudo e de todos, ele persistia.
No mundo monocromático de JoZé, criador e criatura mesclam-se a tal ponto, que fica difícil distinguir onde está o homem e onde se interrompe o personagem. Com ou sem, a sua característica oratória de português errado, Mojica transitava entre os limites do misógino e do galanteador, do criativo ao copista, do sacro e do profano.
José Mojica Marins é o Ed Wood do Brasil, só que melhor.

1951

O LIVRO
O texto é fácil e absurdamente envolvente. Além de ser prático e pontual, características raras em publicações do gênero. Publicado originalmente em 1998, a biografia relata a lenda e descreve o homem; um indivíduo vanguardista que aprendia pelas máximas da vida, de faça você mesmo, só aprende tentando e tantas outras.
A edição em capa dura (claro!) com soft touch traz ares daqueles livros antigos de magia e/ou bruxaria que aparece em filmes da Sessão da Tarde. Mago ou bruxo, Mojica na verdade tem de tudo um pouco.Cópia de IMG_20160209_105301
A dupla de jornalistas foi competente e engajada para com a causa. A edição revisada e ampliada, reeditada pela DarkSide Books – aliás, ele é padrinho da mesma – é um testemunho impresso de uma época, algo como um resgate de um período inventivo e audacioso do cinema brasileiro. André Barcinski e Ivan Finotti além de estudiosos e admiradores são amigos pessoais de Mojica e isso está refletido no texto, que permeia sua narrativa entre anedotas e imparcialidade. Historicamente didático e bastante factual, diga-se de passagem, Maldito foi uma das melhores biografias que já li. Empatia, dramaticidade e o cômico fluem do texto como um aura, uma névoa que facilmente lhe tomará pelas palavras, pelas linhas dessa história.
A biografia é tão completa e abrangente que em 2001, serviu de base para um documentário sobre a vida e a obra de Jo. Amigos, colegas de trabalho e o próprio biografado, opinam e recordam sobre o tempo em que trabalhavam juntos.
Atualmente, o mesmo livro foi novamente usado para o desenvolvimento de uma série em seis episódios produzida pelo canal Space, convenientemente lançada em uma sexta feira 13.
Outra curiosidade, é que Mojica também nasceu numa sexta feira 13!
Matheus Nachtergaele convence como Zé do Caixão em cena; talvez Mojica tenha encontrado seu doppelgänger dessa vez. Sua interpretação é formidável, postura e principalmente a imposição da voz impressionam. A série é uma representação clara do que se lê nas páginas da biografia. Um complementa e o outro expande.
1962
O LEGADO
Zé do Caixão possui mais de 30 filmes em sua filmografia. Viveu e se envolveu com todas as vertentes possíveis do que era midiático e consumido no momento. Foi do teatro ao palanque de comícios em questão de anos. Seu trabalho é relevante para o cinema brasileiro, mas ridiculamente pouco reconhecido em seu país de origem.

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Lá fora, era Coffin Joe, participava de festivais internacionais, conheceu Vicent Price, Darren Aronofsky e tantos outros diretores e artistas que de alguma forma conhecia e admiravam seu trabalho, e quando retornava ao Brasil, voltava trabalhar em mais uma produção B, que tinha como locação algum galpão deteriorado e alguma uma equipe subaproveitada, além de se aproveitar uma história estapafúrdia.
Tudo isso apenas para manter seu sonho ativo: viver de cinema e terminar sua Trilogia do Terror – sonho esse que só seria realizado 40 anos depois – com “A Encarnação do Demônio” em 2008.
Mojica explorou a sétima arte como ninguém. Em questão de duas décadas foi do terror a pornochanchadas, para manter-se ativo e recebendo algum.  Já logo no seu primeiro filme, Zé do Caixão quebrava a quarta parede, não só paredes, mas recordes também. A bilheteria dos seus filmes sempre foram subvalorizadas, coisa que possivelmente hoje ele teria o posto de um das maiores bilheterias do Brasil.

1953

José Mojica Marins (aka Zé do Caixão aka Oaxiac Odez) possui(a) acessos de genialidade e loucura. Zé do Caixão é um alter ego, uma persona que tomou forma e coabitou ao lado de Mojica, mestre e aprendiz em um único corpo. Mitomaníaco e incompreendido, Mojica vive dentro e fora do nosso tempo, Zé é atemporal e faz parte do inconsciente coletivo brasileiro, como uma lenda urbana.
Após a leitura de Maldito ficam claras duas certezas:
1º – Zé do Caixão em sua busca por um filho com a mulher perfeita, sempre morre no final.
2º – Ele sempre volta…