A editora Darkside Books® lança em sua linha intitulada Darklove, mais uma obra pra morrer de tanto amor, A Guerra que Salvou a Minha vida de Kimberly Bradley. Diferente da maioria dos livros publicados anteriormente, esta história não conta com o sobrenatural, que é a marca registrada da editora. È uma história de superação e acima de tudo, amor.

O livro narra à história de vida de Ada e de toda a sua transformação. Ada é uma criança que vive prisioneira em sua própria casa. Ela nasceu deficiente de um dos pés, ela possui pé torto e por puro preconceito de sua mãe que tem vergonha do problema da filha. Ada cresceu vendo o mundo pela janela do pequeno apartamento de onde mora, suas únicas companhias são de sua mãe e de seu adorado irmãozinho Jamie.

“Não quero você falando com ninguém” disse a Mãe. “Eu só te deixo ficar nessa janela porque tenho bom coração…”.

“O Jamie está lá fora”, falei.

“E por que não estaria?”, disse a Mãe. “Ele não é aleijado. Não é que nem você.”

Era de maneira cruel que Ada era tratada. Jamie por ser pequeno não compreendia muito que acontecia, mas ficava magoado com as ações da Mãe com a sua irmã. Ada era espancada fisicamente e verbalmente todos os dias. Além da falta de alimento e a falta de convívio com outras pessoas. Nem andar ela sabia, vivia a se arrastar pelo apartamento, mas eis que tudo mudou a guerra que prende a todos veio para libertar Ada.

“Quando eu pensava em ir pra casa, ficava sem ar. Minha casa dava mais medo que as bombas.”

Todas as crianças seriam evacuadas de Londres para o interior, todas menos Ada. Seria se ela não tivesse tomado coragem para fugir. Junto de Jamie ela conseguiu fugir e foi embora junto com outras crianças de trem. Ao chegarem à estação era a hora de serem escolhidas por outras famílias para serem cuidados, mas com a aparência deplorável que tinham, tanto Ada como Jamie não foram escolhidos e com isso foram levados para Susan, que não queria ninguém.

“‘Ela não gosta da gente. Não queria a gente, lembra? ’Eu tentava não dar muito trabalho, pra que ela não obrigasse a mulher de ferro a nos levar embora.”

Ada teria sua vida mudada completamente por sua estadia na casa de Susan. As mudanças seriam difíceis para ela. Ada tinha muitos traumas e superá-los não seria uma tarefa fácil. Ela foi criada como se seu aspecto fosse digno de vergonha, onde todos a rejeitariam por conta de seu pé torto, além do que se ela foi rejeitada e maltratada por sua própria mãe, como ela poderia esperar ser tratada de forma diferente pelos outros?

“Era mentira. Era mentira, e eu não podia suportar. A voz da Mãe ecoou na minha cabeça. Sua porcaria horrorosa! Lixo, imunda! Ninguém quer você, com esse pé horrível!”

A mãe de Ada dizia aos vizinhos que a filha tinha doença mental e por isso não poderia sair de casa. Ninguém sabia que a menina só tinha o pé torto. Isso fez com que a educação dela fosse totalmente negligenciada. Ada não sabia o significado das palavras mais simples, ela não sabia nem seu sobrenome exatamente e muito menos a data de seu nascimento. Ela vivia só para cuidar de Jamie e protegê-lo dos maus tratos que a Mãe os infligia.

“Eu não preciso que o mundo veja a minha vergonha em ter uma filha aleijada… Você é uma aleijada. É só isso o que você é. Uma aleijada, nada além de uma aleijada. Nunca foi nada mais do que isso.”

Fora da prisão domiciliar vemos o conflito da prisão mental de Ada. Ele é uma menina difícil, pois ela não consegue aceitar amor ou carinho de alguém. Ela é cabeça dura e tem uma autossuficiência assustadora às vezes. Mesmo precisando de ajuda ela se recusa a pedi-la. Ela se recusa a ser amada ou a aprender, pois tudo isso pode ser retirado dela tão rápido quanto adquirido. Ela não quer voltar para casa, mas sabe que um dia a guerra vai acabar e ela vai precisar voltar a viver só olhando pela janela.

“Eu poderia ter passado a vida toda saindo do apartamento. Poderia ser igual ao Jamie, correndo rápido.”

São esses conflitos que podem deixar o leitor com raiva de Ada. O quanto ela pode ser cabeça dura, querendo afastar tudo que vem de bom para ela. Mais temos que compreender que ela vive na defensiva, pois a vida toda ela foi tratada como lixo e indesejada. O psicológico dela foi muito afetado pelos maus tratos que sofreu. Ela ama a liberdade que adquiriu e ela não quer voltar a ser uma prisioneira e ao mesmo tempo ela se vê encurralada, pois sabe que tudo pode desmoronar.

“Eu sabia que a Susan não era real. Ou ainda que às vezes fosse um pouquinho real, na melhor das hipóteses era temporária. Iria se livrar de nós tão logo a guerra terminasse ou a Mãe mudasse de ideia.”

São muitos conflitos para uma criança de apenas 11 anos. Tudo pelo que ela passou para deixar o irmão incólume vai desde passar fome a ficar presa em um cubículo abaixo da pia de castigo a noite inteira. Isso tudo torna Ada uma personagem difícil de compreender e amar por alguns momentos, pois o seu orgulho tolo a deixa cega. Ela que mostrar tanto que é capaz de fazer tudo sozinha e que seu pé não é um problema, que ela acaba tornando a sua vida mais difícil. Até ela compreender que todos independente de ser portador de deficiência física ou não, sempre precisaremos da ajuda de alguém.

“Você é perfeitamente capaz de aprender. Não dê ouvidos a quem não conhece você. Escute o que sabe. Escute a si mesma.”

Ada trilhará um difícil caminho até se adaptar e compreender que ela não era a culpada por não ser amada e nem desejada pela “Mãe”, e que o problema era a sua própria progenitora. E quando tudo parece estar indo bem eis que um fantasma que já estava sendo esquecido resolve voltar e trazer todos os pesadelos de Ada e Jamie de volta a vida.

A Guerra que Salvou a Minha Vida é cativante no seu todo. É relativamente curto, eu queria mais, bem mais. Mas gosto de ficar imaginando: E depois? E quando a guerra acabou o que foi feito de Ada, Jamie e Susan? Bom vai depender de cada um de nós imaginarmos. Eu gostaria mesmo era de saber o que se deu da mãe das crianças, pois todas as vezes que eu lia as falas da Mãe de Ada, tinha vontade de sentar-lhe um safanão no meio da cara.

A visão dela sobre a deficiência da filha era de dar nos nervos. O modo como ela fazia uma criança se sentir a pior coisa do mundo era algo assustador, e que sei que até os dias de hoje, isso ainda pode ser a realidade de outras crianças. As pessoas ainda possuem muito preconceito de diferentes aspectos. Sendo que a Segunda Guerra Mundial foi regida sobre o preconceito, ironicamente Ada foi liberta graças à guerra iniciada por Hitler.

Nós vemos tudo pelo seu ponto de vista, e assim conseguimos compreender o motivo de ela ser tão difícil. Ela simplesmente não quer se apegar ao que não poderá ter para sempre. O único que ela realmente não pode perder é Jamie. Os surtos que Ada sofre durante a narrativa são bem graves. E outro fato interessante é o artifício de manter o pensamento longe quando ela está passando por algo desagradável para ela. Meio parecido com o que acontece com a Babydoll do filme Suckher Push.

De modo geral é um daqueles livros que te faz pensar sobre o preconceito idiota que muitas pessoas alimentam. Ada foi um vitima e quantas vitimas reais não existem por aí? Quantas Adas passaram e passam por isso até hoje? Além da boa história temos um belo exemplar nas mãos. Todo o design que vai desde a capa ao miolo do livro, é maravilhoso, sua capa dura com ilustração de retalhos é muito bela e singela, como toda a história. A tradução muito bem executada por Mariana Serpa Vollmer. Minhas congratulações a toda equipe envolvida neste projeto.

A Guerra que Salvou a Minha Vida ganhou o Newbery Honor Book, o Schneider Family Book Award e o Josette Frank Award, além de ter sido eleito entre os melhores livros de 2015 pelo Wall Street Journal, a revista Publishers Weekly, a New York Public Library e a Chicago Public Library.

Saiba sobre a autora em: kimberlybrubakerbradley.com

Título: A Guerra que Salvou a Minha Vida
Título original: The War that Saved My Life
Autor: Kimberly Brubaker Bradley
Tradutor: Mariana Serpa Vollmer
Editora: Darkside®
Ano: 2017
Gênero: Literatura norte-americana, Guerra Mundial 1939-1945 – Ficção- Refugiados.
Páginas: 240
ISBN: 978-85-9454-026-3 (capa dura)