A Darkside Books® sempre vem inovando, e agora vem nos presentear com o melhor do Medo clássico. E o primeiro com esta denominação que chegou a minhas mãos para ser apreciado foi o conhecidíssimo Frankenstein de Mary Shelley. Apesar de na época em que foi escrito a mulheres não serem as maiores escritoras deste gênero, Mary fez a sua obra ser maior que o seu próprio nome, para sempre ela seria a autora de um monstro.

O jovem Victor Von Frankenstein,filho de uma família abastarda,foi criado e educado para ser um bom homem, mas desde a adolescência mostrou-se um jovem que adorava novas descobertas. Frequenta as melhores escolas e consequentemente uma ótima universidade. Já jovem adulto, ele começa a estudar sobre ciências naturais e é então que começa a entrar profundamente nos assuntos que envolvem a vida e a morte. Apesar de na sua adolescência o mesmo já ter mostrado interesse por esta área especifica.

“Foi um grande esforço do espírito do bem, embora ineficaz. O destino era muito poderoso e suas leis imutáveis haviam decretado minha absoluta e terrível destruição.”

Victor então começa a almeja chegar aonde nenhum ser humano jamais chegou. Trazer a vida algo que esteja morto por vias cientificas. Então o jovem Frankenstein começa a gastar as suas noites em cemitérios e necrotérios em busca de pedaços humanos mortos para criar a sua obra prima (ou sua desgraça). Ele deixa de comunicar-se com seus amigos e familiares e perde dias e noites e sua saúde na busca incessante do seu sucesso.

“Agora eu era levado a analisar a causa e o progresso dessa decadência e forçado a passar dias e noites em jazigos e sepulturas. Minha atenção se voltara para cada um dos objetos mais insuportáveis para a sensibilidade humana.”

Até que este fatídico dia chega. Victor criou uma criatura de proporções gigantescas e aparência monstruosa e usando os métodos por ele estudados ele traz a vida a sua criatura. O que o pobre Dr. Frankenstein não esperava era que ele próprio desprezaria com todo o ardor a sua criação, que no mesmo dia em que seu criador cai doente a sua criatura some de seu laboratório.

“Depois de incríveis dias e noites de trabalho e fadiga, obtive êxito ao descobrir a causa da geração de vida; mais que isso, tornei-me capaz de animar matéria sem vida.”

Alguns anos se passam e a criatura continua desaparecida, mas o fatídico dia do reencontro de criador e criatura se aproxima. Uma tragédia atinge a família de Victor, que deixa os seus estudos e laboratório para voltar ao seio familiar. O que sua família e amigos não fazem ideia é que o seu amado e querido Victor é indiretamente responsável pelo drama familiar.

“Aí de mim! Soltara no mundo um infeliz depravado cujo prazer estava na carnificina e no tormento…”.

O ápice é o reencontro do Doutor e do monstro. A criatura era mais impressionante do que se esperava. Dotado de vida de inteligência o monstro é de uma sensibilidade tocante. A sua eloquência fascinante pode engabelar o mais esperto dos homens se a sua aparência não fosse tão aterradora. O monstro nos conta toda a sua sina desde a sua saída do laboratório.

“Rogo para que me ouça antes que desafogue seu ódio sobre minha cabeça infeliz.”

O monstro foi abominado por todos, mas o pior é ter sido repelido por aquele que é culpado de sua triste existência. A criatura no seu âmago foi criada para amar, mas as circunstâncias pelo qual passou o tornaram amargo e violento. E ele atribui a culpa ao seu criador, que aos seus olhos é um homem ruim, assim como todos os que o maltratam.

Em todo lugar vejo a felicidade que somente a mim é irrevogavelmente negada. Fui benevolente e bom; a infelicidade transformou-me em um demônio. Faça-me feliz e serei virtuoso novamente.”

O monstro pede algo que Victor não deseja fazer, com a promessa quebrada a criatura decide transformar a vida de Victor em um inferno, pois se ele não consegue ser feliz tão pouco o seu criador viverá em paz. Então a vida de Victor vira um inferno de acontecimentos. Um não poderá viver enquanto o outro não morrer.

“Muito bem. Irei; mas lembre: estarei com você em sua noite de núpcias.”

“- Patife! Antes de assinar minha sentença de morte, tenha certeza de que você mesmo está a salvo.”

Esta é a principal sina dos dois personagens principais desta trama, há outros personagens secundários como a querida e amada Elizabeth, o grande amigo de Victor, Henry Clerval, e seus irmãos mais novos. A história começa com a narrativa de cartas escritas por Robert Walton. Victor está em um navio no encalço de sua criatura. Walton narra para sua querida irmã Margaret toda a triste história envolvendo criador e criatura.

Durante toda a narrativa senti-me com pena pelo criador e pela criatura. Vi os dois lados da moeda, e como sempre digo, não existem verdade ou mentira e sim versões de uma mesma história e cabe a você decidir qual delas você adota como a verdade. O fato é que o Dr. Frankenstein estava brincando de ser Deus, o problema é que o seu Adão não era de fato o que ele almejava e então ele o abominou. O monstro se sentiu simplesmente como uma criança que é abandonada pelos pais. Vive uma constante de amor e ódio por aquele que o repudiou. Ambos tem sua leva de culpa e ambos sofreram as consequências de suas escolhas,tenham elas sido equivocadas ou não.

O que fez esta obra ser apreciada até a atualidade é isso, a sua originalidade. Não havia esse tipo de história na época. Ela foi à propulsora para as subsequentes obras que relatam vida e morte. Mary Shelley definitivamente não parece um iniciante com a sua obra prima. Uma conversa entre amigos gerou um dos maiores monstros conhecido pela literatura, cinema e TV, o monstro inominado de Mary Shelley. Sem esquecer que outro amigo o Dr. Polidori que foi o criador do primeiro vampiro em forma humana Lorde Ruthven. Personagem de The Vampyre (1819). Eles influenciariam toda uma leva de autores pelo mundo todo.

De uma conversa entre amigos a sucesso mundial (por mais conversas assim no mundo literário). Um sucesso que ultrapassou séculos e que até hoje é uma história fascinante e atual, até por que o homem até os dias atuais é incapaz de montar uma criatura e trazê-la a vida com tamanha inteligência e autonomia como o Dr. Frankenstein fez.

Confesso que foi a primeira vez que li a obra de Mary, mas quem não conhece o seu monstro? O que talvez muitos não sabem é que o monstro em si, nunca teve um nome propriamente dito. Sim Mary nunca deu um nome para o seu monstro. O fato é que muitos acreditam que Frankenstein é o nome da criatura, quando na verdade é o sobrenome de seu criador. Eu sou uma das que na infância acreditava este ser o nome da coisa.

Shelley tem uma escrita maravilhosa. As paranoias de Victor, a eloquência de seu monstro é formidável. Isso é um clássico maravilhoso que deve ser apreciado, não só pela originalidade da obra, mas pela escrita bem desenvolvida. A linguagem um pouco rebuscada, mas de fácil entendimento. Isso tudo faz dele um clássico. O que muitos autores de terror de hoje em dia não fazem é explorar o universo de forma original, criativa e bem escrita. Não precisamos de gírias ou tanta modernização de palavras para ter uma obra atual.

Esta não foi à única obra de Mary Shelley, mas claro que assim como a criatura, ela seria para sempre a senhora Frankenstein. A vida de Shelley foi cheia de percalços como a do pobre Victor. Esta não é a sua única história a retratar vida e morte. Tanto que a Darkside Books® nos presenteia com esta Deluxe Edition, que nos envolve na vida pessoal de Mary e de outras obras suas. Ao terminar a história de Frankenstein em si, nós entramos em outros contos da autora de tema semelhante. Valério: O romano reanimado, Roger Dodsworth: O inglês reanimado, O imortal mortal. Transformação é o seu único conto da coletânea que não trata de vida e morte.

Talvez as tragédias vividas por Mary no decorrer de sua vida a tenham deixado tão fascinada pelo tema. Falando sobre a edição em si, bom o texto é escrito em preto e vermelho sangue, com várias ilustrações de pedaços de corpo humano e claro da criatura inominada. Um deleite aos olhos, o livro possua uma beleza impar. Obrigada Darkside Books® por mais esta maravilha de edição. Sem esquecer-se de mencionar o ótimo trabalho de tradução de Márcia Xavier de Brito, com suas notas e sua bela introdução e a Carlos Primati pelos Contos sobre a imortalidade.

Mary Shelley nasceu em Londres, em 1797. Filha da pioneira do feminismo Mary Wollstone e do filosofo William Godwin, teve a infância marcada pela tragédia da morte da mãe, ocorrida apenas onze dias após seu nascimento, devido a complicações no parto. Em 1814, conheceu Percy Bysshe Shelley. Após o suicídio da primeira esposa deste, casou-se com Shelley em 1816 – ato que a levou a ser repudiada pelo pai. Entre 1818 e 1822, o casal viveu na Itália e teve quatro filhos, sendo que apenas um, Percy Florence, sobreviveu. Após a morte do marido em um naufrágio, Mary decidiu voltar para a Inglaterra com o filho e viver como escritora profissional. Além de Frankenstein, romance gótico fundamental na história do horror moderno e um dos livros fundadores da ficção cientifica, Mary Shelley escreveu contos, ensaios e romances entre os mais diversos gêneros, como Valpenga (1823), The Last Man (1826), Perkin Warbeck (1830) e Lodore (1835). Organizou também a antologia poética de P. B. Shelley em 1839. No dia 10 de fevereiro de 1851, Mary Shelley morreu em Londres. Entre seus diversos legados e sua importância impar, ela deixa conosco acima de tudo a marca de um cientista enlouquecido pelo poder e a sina de sua horrenda e infeliz criatura.

 

Título| Frankenstein; ou o Prometeu Moderno

Título original| Frankenstein; or, the Mordern Prometheus

Autor| Mary Shelley

Tardutor| Márcia Xavier de Brito / Carlos Primati

Editora| Darkside Books®

Ano| 2017

Gênero| Ficção inglesa, Ficção cientifica.

Páginas| 304

ISBN| 978-85-9454-018-8 (capa dura)