Um Curto Conto
Um Curto Conto

Dois Lados da Moeda – Cara

Pela mórbida escuridão da noite enevoada a caminhada parecia calma e silenciosa, tranquila.
Ao longe no caminho não havia nada para se ver à frente, mas para trás algo chamou a atenção… passos extras podiam ser ouvidos.
Olhos atentos para todos os lados não enxergavam nada de forma alguma.
Sorrateiros e cuidadosos, tais passos se aproximavam preocupantemente.
Em meio à neblina nada podia ser visto.

Alguns pensamentos perturbadores pairavam sobre a mente feminina e frágil daquela caminhadora noturna.
Quem está ai? Foi a pergunta proferida.
Esperando não ouvir uma resposta e temendo o pior, se assustou mais ainda ao perceber uma voz retrucando com ela. Era masculina e confiante, certa e sincera! Respondeu: É seu executor!
Olhos arregalados, disritmia cardíaca, adrenalina por todo corpo… essa foi sua resposta química. Já a resposta física foi a mais lógica: correr! Impulsionada pelo pânico psicológico fugiu, infelizmente desorientada.
A fuga em desespero era descoordenada e barulhenta, assim não se ouviu mais seu matador.
Ao parar depois de um longo período, já estupefata de canseira, tentou escutar alguma coisa, mas nada lhe veio.
O nevoeiro só piorava, o silencio ensurdecia e esfriava mais o suor que se misturava com a água da atmosfera. Não havia casas por aquele caminho, apenas frágeis postes luminescentes.
Salvação? Teria escapado de seu proposto assassino?
Um pleck foi ouvido e ao se virar devagar e em pânico para saber de onde vinha o som deu um berro de pavor.
Ali estava ele, de cartola e terno noturno preto, descalço, tranquilo e sereno, infelizmente com tom de verdadeiro no rosto e segurando um bisturi em sua mão esquerda.

O desgraçado é canhoto! Surpreendeu-se.
Esse também foi seu ultimo pensamento em vida.

Seu sopro final de vida se esvaiu naquele ar desesperado do ultimo grito que pode dar por, e para, alguém…

Manchetes no dia seguinte: Jack, o Estripador Ataca Novamente.

 Dois Lados da Moeda – Coroa

A vida é injusta! Principalmente com suas vitimas.
Ele vinha calmo e seletivo, andando levemente, revolvendo a nevoa branca e gélida da noite triste sem luar.
A via se ilumina por lampiões ardidos e fracos.
A inspiração noturna chamava a algo maior que a própria vida, ao prazer.
Certa inspiração o encaminhava a seguir o som oco de madeira tocando as pedras do calçamento. O salto alto não ajudou a vitima naquele dia.
A moça, uma dama da noite, vinha calmamente cortando a brancura da neblina e fazendo pequenas sombras com seu corpo.
O desejo o consumia. Ele não dominava a necessidade descontrolada e doentia.
Algo o despertava, talvez o batimento cardíaco que acelerava, talvez a adrenalina que o proporcionava maior agilidade e raciocínio, talvez o calculísmo que carregava em suas veias de mercador. Seja lá o que for, o fez tirar os sapatos, sua estratégia se iniciara: bastava apenas um som de passos.
Ela o percebeu…
A correria era inevitável.
Infelizmente a moça teve uma fuga paradoxal, e fugiu cegamente em direção a ele.
O homem, então, deu passos para trás, tudo para não topar com sua caça.

A frenética correria parou abruptamente.
A respiração era ofegante.
A moça voltava a valorizar a vida. Talvez houvesse esperança… talvez…

O bisturi escorreu da manga do paletó para a mão, um desejo bestial e descomunal tomou o ser masculino que ali se aproximou sorrateiramente a passos curtos, leves e tranquilos.
Quanto mais próximo chagava, maior era seu prazer… suas pupilas se dilataram.

Naquela noite ele até conversou com sua vitima, e foi sincero!

A noite terminou sem sua pureza inicial… através das manchas de sangue tristes e felizes na calçada, o momento de êxtase paradoxal findou o ato.
Quanto mais cortava e dilacerava o corpo, maior era sua satisfação!

Onde coube a tristeza e fim, também coube o prazer e, de certa forma, a felicidade.

Quando a vida de alguns justifica a morte de outros… é errado? Questionava-se o coitado pseudo-vampiro que tinha ânsia por sangue para saciar sua sede psicológica e conseguir ter prazer.

Maik Bárbara