Como um preâmbulo, David Bowie canta os versos iniciais de Lazarus, faixa do disco “Blackstar”, recente trabalho lançado pelo artista no dia 08 de Janeiro, coincidentemente, o dia do seu aniversário.
Dois dias depois, as redes sociais do artista, notificam e chocam o mundo da música com a nota sobre seu falecimento.
Agora, pela finitude óbvia da vida, essas estrofes ganham um tom quase premonitório:
“Olha aqui, eu estou no céu,
Eu tenho cicatrizes que não podem ser vistas,
Eu tenho drama, não pode ser roubado
Todo mundo me conhece agora” 
Caberá a futuros biógrafos, o dever de esclarecer essas lastimáveis e curiosas coincidências. Se Bowie já sabia desse fatídico fim e estava deixando isso claro, nesse ultimo trabalho, e principalmente no estranho vídeo dessa canção?

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Divagações à parte, o incontestável é que David Bowie foi um ícone. Um verdadeiro artista, no sentido mais claro e objetivo da palavra. Viveu as transições do tempo, como um ser que se molda, que se adapta ao ambiente, um verdadeiro camaleão.  Do rock? Talvez!? Bowie apenas fazia sua música, e por muitas vezes, fugiu dessa rotulação ao flertar com a disco, o folk e até o drum and bass.
Sua artisticidade transbordava também fora dos palcos. Anos antes dos discos, Bowie já experimentava outras formas de arte, sem aquele receio do novo e assim, foi parar no cinema. Com sua falsa heterocromia, na nona arte fez papéis icônicos que faziam jus ao seu caráter versátil e ousado. Foi Jareth, o Rei dos Duendes no nostálgico O Labirinto, interpretou a si mesmo no polêmico Eu, Christiane F. 13 Anos, Drogada e Prostituída, deu vida a Nikola Tesla no ótimo O Grande Truque e foi até um agente do FBI no filme derivado da série Twin Peaks.
David Bowie foi múltiplo e único em sua dinâmica essência. Construiu sua história dentro e fora dos palcos. Criador e criatura se misturavam. Suas músicas falavam sobre o espaço, sobre a ganância e a angústia do homem, sobre os anos dourados e sobre os monstros de uma America que lhe assustava e fascinava.
Sua influencia é absurda. Do plástico ao concreto, do teatral ao grotesco, David Bowie foi influência e referência para diversos outros artistas e formatos de mídia. Extremos que vão de Marilyn Manson a Radiohead, este último por sinal, chegando a ter ser citado pelo próprio artista em uma entrevista com “a melhor banda por aí” são exemplos claros da força da sua criatividade.

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Bowie foi atemporal e visionário. Um indivíduo que vivia entre as fronteiras do passado e do futuro, vivendo em um presente errático e em constante mudança.
O mais próximo que posso dizer que estive do artista, foi quando visitei em 2014, a exposição da V&A Museum sobre David Bowie que estava no MIS, em São Paulo. Na época, fui à cidade para um famoso festival de música, mas, confesso que a maior recordação que guardo dessa viagem, foi justamente passear pelas galerias do museu. Ver os rascunhos das famosas canções, os figurinos usados nas turnês, os instrumentos, alguns objetos do artista e da pessoa Bowie que estavam ali para atestar a singularidade da sua criação e personalidade.
Ao entrar recebíamos um fone de ouvido, que permitia apenas ligar/desligar e regular o volume. Estranho naquele primeiro momento, mas, mediante íamos adentrando nos espaços, entendíamos o porquê daqueles singelos botões. Se nos aproximássemos de um monitor, um figurino, um espaço especifico logo iniciava uma canção naqueles fones. Dentro daquele contexto, era algo mágico, lúdico e especial de vivenciar.
O ápice do passeio foi adentrar em um pequeno espaço todo espelhado, que do chão ao teto, nos remetia ao som de Starman, a infinitas direções e reflexos. Guardo até hoje o ingresso. Algo bobo, mas significativo.

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David foi Jones, foi Bowie, foi Ziggy, foi o Homem que vendeu o mundo, foi Aladdin Sane, foi “um lugar insano”.
Na sua partida, o homem comum deixa memórias para aqueles que ficam e assim estes revivem e relembram algo da sua pessoa, artistas quando se vão, além das memórias, deixam um legado, uma extensão da sua vida, uma forma de se manter perpétuo.
Como artista, David Bowie ensinou que podemos ser heróis, ao menos por um dia, que o show mais estranho de todos no fim é a vida e que sim, havia um homem das estrelas esperando no céu desejando nos encontrar.
Na verdade, ele já veio.
E infelizmente já se foi.
As estrelas parecem muito diferentes hoje.