Era uma vez quatro tristes tigres. Eles caminhavam pela Grande Terra de Populi, cabisbaixos, procurando um lugar onde pudessem se encaixar. Passaram pela Campina de Esopo, mas tropeçaram em uvas verdes e foram expulsos por uma raposa de olhos insanos. Andaram pela Terra de Grimm, mas não foram bem recebidos nos castelos: os guardas temiam que sua melancolia arruinasse o “Felizes para Sempre” que levaram tanto tempo para instituir como regra geral.
     Atravessaram ainda, sem sucesso, a Cidade de Dita-Lex, mas as corujas que se postavam na entrada da cidade os espantaram com azeite e fogo. Então tentaram, sem sorte, atravessar os altos muros de pedra do Castelo de Margarida, bem na entrada Sul do Estado de Cantare. Mas os cavaleiros que se ocupavam em abri-lo pedra por pedra não permitiram sua passagem. Por fim, se detiveram numa estrada comprida, indicada como Caminho de Travas.
     Não havia qualquer guarda, cavaleiro, animal, parede ou calabouço que pudesse impedi-los de seguirem por ali. Andaram por algum tempo quando, enfim, se detiveram numa encruzilhada que indicava duas opções de caminho: para a direita, “O Trigo de Travas”; para a esquerda, “Os Pássaros de Travas”. Os tigres menores, que eram três, aguardaram que o tigre maior indicasse o caminho que seria mais conveniente.
     – Vamos para o Trigo. – O tigre maior começou a caminhar para a direita, mas apenas dois dos tigres menores o seguiram. O terceiro pequeno e triste tigre continuou parado.
     – Eu quero ir para os pássaros – ele fazia um choro infantilizado, forçadamente felinizado.
     – Tem certeza? – O tigre maior interrogou-o. Ele via nos olhos dele um mesmo desejo de desafio que acabara deixando os quatro tristes, famintos e separados de sua terra-mãe. O pequenino meneou positivamente com a cabeça. – Pois bem, boa sorte.
     Assim, três dos tigres tristes seguiram pela direita. Um, um só, triste tigre solitário, para a esquerda.
     O caminho dos três tigres foi longo, mas eles finalmente chegaram a uma extensa plantação de trigo, com uma pequena casinha de madeira posta no meio do caminho, e uma pequena e tristonha menina sentada em degraus de madeira. Aos seus pés, quatro pratos cheios de trigo, gordo e dourado trigo. Os tigres tristes se aproximaram lentamente. O menorzinho de todos falou, pois sua vozinha era mais felina que a dos outros.
     – Com licença, senhorita. Para quem são os pratos de trigo? – A garota parecia tão triste e faminta quanto os tristes tigres.
     – Não sei. Mamãe mandou que eu esperasse para ver se alguém passava. Ela disse que eu só posso comer do meu depois de alimentar alguém com os outros três. – Ela levantou os olhos do chão e abriu-os inteiros, mostrando-os totalmente gigantes e brilhantes – Vocês aceitam?
     Dessa forma, os três famintos e tristes tigres comeram, cada um, um prato de trigo, e assim fez também a triste e faminta menina.
     O tigre solitário que seguiu para onde ficavam os pássaros de Travas andou bem pouco antes de alcançar o lugar. A área era enorme, rodeada por árvores, formando uma pequena praça social dos pássaros ao centro. Eles voavam livremente, e alguns até arriscaram brincar com o tigre – que não ficou nem um pouco menos triste com isso. Caminhando mais um pouco, ele chegou até uma árvore onde havia um animal marrom, felpudo, com olhos pretos pequenos e uma boca enorme, com dentes serrados. Ele gritava com voz de locutor, e não se parecia nada com um pássaro.
     – Ei, você, senhor tigre! Parece tão tristonho, mas vejo que é um animal muito distinto, inteligente… Aceitaria um pequeno desafio? – O tigrezinho se aproximou, ávido pela pergunta, quando esse animal esquisito deu um passo para o lado e deixou à mostra um ninho cheio de pássaros estranho, de pernas compridas e finíssimas. – Você vê, senhor, que eu aqui tenho um ninho com sete mafagafos. Será que poderias, como sua inteligência felina, desmafagafizá-los e tornar-se um Supremo Desmafagafizador?
     O tigrezinho nem hesitou, subiu num só pulo ao galho do ninho. Tão logo estava no alto, o esquisito animal desceu da árvore.
     – Ei, aonde você vai? Você nem me disse como se desmafagafiza um mafagafo!
     – Ora, meu distinto felino, isso faz parte do desafio! – Assim, o animal, chapéu na cabeça, seguiu caminhando até desaparecer de vista. O tigrezinho, seduzido pelo desafio, foi incapaz de fazer o mesmo.
     O tigrezinho olhava, tocava, sacudia os mafagafos, mas não fazia nem ideia de como desmafagafiza-los. Depois de inúmeras tentativas, ele continuava lá, olhando-os, tocando-os e sacudindo-os. E, conforme os anos seguiram, do galho ele não descia e, de triste tigre, acabou tornando-se um louco.
     Quem hoje em dia tem a sorte de passar pela Terra que outrora fora Populi, jura que escuta, próximo às plantações de trigo, uma voz melodiosa e brilhante cantando, junto ao vento “Três pratos de trigo para três tristes tigres…”. Outros ainda juram que, próximos às árvores frondosas, dispostas em círculo, uma voz lamuriosa, melancólica e insana clama “Num ninho de mafagafos, sete mafagafinhos há… Que melhor os desmafagafizar, bom desmafagafizador será…”.