Há algum tempo atrás comecei a estudar alguns movimentos culturais e classes literárias, e claro, passei pelo Neoclassicismo, foi onde topei novamente com o nome Marquês de Sade.

Esse nome ficou em minha cabeça por anos, pois namorei uma guria que na época me indicou dois filmes que falavam sobre o escritor libertino. Assisti aos filmes e gostei, porém fiquei só nisso, não pesquisei mais nada sobre ele, a propósito, eu estava no meio de uma viagem que durou alguns anos, não tinha cidade fixa e nem notebook para realizar pesquisas.

Voltando, Donatien Alphonse François de Sade ficou conhecido como Marquês de Sade, foi um aristocrata francês e escritor de alguns contos um tanto quanto pervertidos, principalmente pela época na qual foram escritos. Uma parte interessante da história do autor, é que ele escreveu muitos contos enquanto estava preso (ele foi preso por Napoleão Bonaparte). Outro fato interessante, é que o termo “sadismo”, surgiu de seu nome, devido sua perversão sexual.

Hoje postarei um de seus contos, bem curto por sinal, chamado Há lugar para dois, e se vocês gostarem, no final do post terá o livro na íntegra.

Confira:

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Há Lugar para Dois

Uma belíssima burguesa da rua Saint-Honoré, de aproximadamente vinte e dois anos, gorduchinha e roliça, carnes as mais viçosas e apetitosas, todas as formas modelares ainda que um pouco cheias, e que acrescentava a tão fartos encantos presença de espírito, vivacidade, e gosto o mais aguçado por todos os prazeres que lhe proibiam as rigorosas leis do himeneu, decidira, havia quase um ano, arranjar dois ajudantes para seu marido que, sendo velho e feio, a ela não somente desagradava muito, como também cumpria mal, se não raramente, os deveres que, talvez, com um pouco mais de desempenho, poderiam acalmar a exigente Dolmène – assim se chamava nossa bela burguesa. Nada mais bem combinado do que os encontros marcados com esses dois amantes: Des-Roues, jovem militar, ficava normalmente das quatro às cinco horas da tarde e das cinco e meia às sete chegava Dolbreuse, jovem negociante como rosto mais bonito que se pode ver.

Era impossível fixar outros momentos; eram os únicos em que a Sra. Dolmène estavatranqüila: de manhã, era preciso estar na loja e, à tarde, também tinha de aparecer por lá algumas vezes, ou então o marido voltava, e deviam falar de seus negócios. Por sinal, a Sra. Dolmène havia confidenciado a uma de suas amigas que ela gostava muito que os momentos de prazer se sucedessem assim muito próximos um do outro: a chama da imaginação não se apagava, ela assegurava; desse modo, nada mais temo do que passar de um prazer a outro; não era difícil retomar a ação, pois a Sra. Dolmène era uma criatura encantadora que calculava ao máximo todas as sensações do amor; pouquíssimas mulheres conheciam-nas como ela própria e, em virtude dos seus talentos, reconhecera que, depois de muito meditar, dois amantes valiam muito mais do que um; com respeito à reputação, era quase a mesma coisa, um encobria o outro; poderiam se equivocar, poderia ser sempre o mesmo a entrar e sair várias vezes durante o dia, e com relação ao prazer, que diferença! A Sra. Dolmène, que temia em particular a gravidez, bem segura de que seu marido jamais com ela cometeria a loucura de lhe arruinar a cintura, havia igualmente imaginado que, com dois amantes, havia muito menos risco, quanto ao que temia, do que com um, porque, dizia ela, na condição,de excelente anatomista, dois frutos se destruíam mutuamente.

Certo dia a ordem fixada nos encontros veio a se alterar, e nossos dois amantes, que nunca se tinham visto, conheceram-se de maneira engraçada, conforme mostraremos. Des-Roues foi o primeiro, mas chegara muito tarde, e como se o diabo tivesse se intrometido, Dolbreuse, que era o segundo, chegouum pouco mais cedo.

O leitor inteligente percebe de imediato que, da combinação desses dois pequenos erros, deveria acontecer, infelizmente, um encontro infalível: e assim sucedeu. Porém, mencionaremos como isso se deu e, se possível, ocupemo-nos desse assunto com toda decência e moderação que tal assunto já por si muito licencioso, exige.

Por obra de um capricho bastante bizarro – mas tão comum entre os homens – nosso jovem militar, cansado do papel de amante, quis, por uns momentos, representar o da amante; em lugar de ser amorosamente abraçado por sua divindade, quis, por sua vez, abraçá-la: em resumo, o que está embaixo, coloca-o em cima, e, por essa inversão de posição, inclinada sobre o altar onde normalmente se oferecia o sacrifício, era Sra. Dolmène que, nua como a Vênus calipígia, e encontrando-se estendida sobre seu amante, apresentava, diante da porta do quarto onde se celebravam os mistérios, o que os gregos adoravam com devoção na estátua que acabamos demencionar, essa parte mui bela que, em suma – sem sair à procura de exemplos tão remotos – encontra tantos adoradores em Paris. Tal era a atitude quando Dolbreuse, acostumado a entrar sem dificuldade, chega cantarolando, e vê por um ângulo o que uma mulher verdadeiramente honesta não deve, segundo dizem, jamais mostrar.

O que teria causado grande prazer a muitas pessoas fez comque Dolbreuse recuasse.

– O que vejo? – exclamou -… Traidora… é isso que me reservas?

A Sra. Dolmène que, naquele momento, se encontrava numa dessas crises em que uma mulher age infinitamente melhor do que raciocina, resolve mostrar-se audaciosa:

– Que diabo tens tu, – diz ela ao segundo Adônis – sem deixar de se entregar ao outro – não vejo nisso nada que te cause muito pesar; não nos perturbes, meu amigo, e contenta-te com o que te resta; como bem podes notar, há lugar para dois.

Dolbreuse, não conseguindo deixar de rir-se do sangue-frio de sua amante, pensou que o mais simples era seguir o conselho dela, não se fez de rogado, e dizem que os três lucraram com isso.

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Primeiramente quero pedir desculpas, sei que o texto não está todo formatado, não sei o que aconteceu e não consegui arrumar, mas dá pra ler tranquilamente ;D 

Se você gostou, abaixo tem o livro com vários contos, é bem curto, dá pra ler esta noite ainda ^^

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