Através das redes sociais está evidente que o fanatismo e a intolerância dão um tom sobre praticamente qualquer notícia, principalmente aquelas de cunho religioso.

E o aumento dos casos de atentados ao redor do globo, a intensificação dos conflitos no Oriente Médio e dos estupros na Índia, por exemplo, associam a imagem que determinadas religiões e por consequência culturas são inerentemente violentas.

O julgamento é fácil e praticamente automático diante de tantos exemplos. Justamente sob este ponto de vista, a ex-freira e atual referência em estudo da religião, a britânica Karen Armstrong, apresenta um texto rico em conteúdo e isento de posicionamentos. Através de um estudo minucioso, como já de praxe, a autora de outros livros essenciais que versam dentro da temática, como a Trilogia de Deus (Em Nome, Em Defesa e Uma História de Deus), escreve de forma elegante e erudita sobre a relação entre religião e violência.

Karen Armstrong

Com profundo embasamento histórico, Karen é categórica no óbvio: qualquer religião ou doutrina por si só, não fomenta conflitos. No máximo, o que existe é uma correlação, mas não precisamente uma casualidade, vide por exemplos, tantos outros confrontos sem qualquer vinculação religiosa.

O que é implícito durante a leitura, principalmente com relação aos longevos conflitos no Oriente Médio, é a tênue relação entre o político (o Estado) e o religioso. Onde no primeiro, o diálogo e a aparente solução ainda é possível, já no segundo, com o envolvimento e as convicções individuais ( e por consequência coletivas) deixam tudo mais complicado.

Campos de Sangue

Campos de Sangue perfila por mais de 500 páginas sobre grupos (cruzados, jihadistas e alguns outros) indo até 3.000 anos antes de Cristo, para exemplificar e ilustrar de forma detalhista em que momento e contexto, tal conflito foi formulado.

O livro se divide em três partes. Na primeira, Karen constrói a narrativa com base em eventos ocorridos em sociedades e civilizações antigas. Na segunda, o texto trata e elucida sobre eventos ocorridos e correlacionados com algumas das maiores religiões, dentre elas o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, por exemplo. Na última e mais fluida parte do título, a autora relata dinamicamente sobre a dualidade da proposta central do livro dos últimos séculos até os dias atuais.

A premissa do livro é articulada e bem executada durante o exercício da leitura. Karen trabalha para dissociar a ideia preconcebida do senso comum, ante ações do Estado Islâmico, os ataques aos jornalistas do Charlie Hebdo, por exemplo, que religião mata.  Porém, é fato que a violência é intrínseca da natureza humana.

Um ponto não levantado durante o texto em si, mas interessante do ponto de vista filosófico e argumentativo é que: se religião gera violência, por que o ateísmo não?

O Alcorão, a Bíblia e o Torah são livros sagrados que aconselham e recomendam, em sua grande maioria, a religiosidade pacifica, o amor ao próximo e o cuidado para com os excessos. É bem verdade que eles também apresentam pontos contraditórios em seus preceitos, mas quando o indivíduo pratica e forma a sua religião com a razão e não somente pela fé, blinda-se contra o fanatismo e a intolerância.

Todos estes textos são amplos em interpretações e divergem e se assemelham entre si. O respeito à pluralidade de crenças e a boa convivência entre elas, é a maior mensagem deste título.

Religião é uma identidade também e não precisamos de exemplos, pois a História recente já provou que não é preciso religião alguma para promover um genocídio ou uma próxima guerra de proporção continental.