Jogadores de futebol americano em uma comparação simples seriam aquilo que temos de mais próximo do futebol brasileiro. Uma grande parcela da população os consideram ícones. Ídolos para uma geração e muitos projetam neles a imagem de sucesso, realizações e dinheiro.
Diga-se de passagem, três palavras chaves no mundo de hoje.
Orenthal James “O.J.” Simpson foi ao seu tempo, tudo isso e um pouco mais. De origem humilde nos subúrbios a jogador de destaque na NFL, vira sua vida mudar completamente na noite do dia:
12 de Junho de 1994. Domingo. Entre as 22h e 23h.
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O Crime

Os corpos de dois indivíduos são encontrados por um transeunte. O primeiro, “uma moça no chão, toda ensanguentada” está deitada sobre uma poça de sangue em frente à entrada de uma residência com a cabeça praticamente decapitada tamanha a violência dos ataques. O segundo, um homem com roupas casuais e de porte atlético está deitado próximo ao primeiro corpo com inúmeras perfurações a faca, que vão do rosto à coxa.
A quantidade de sangue é absurda. A cena choca até os mais experientes policiais e peritos.
Enquanto os filhos da primeira vítima dormiam tranquilos no andar de cima da casa e os pais da segunda ainda seriam notificados, dezenas de fatores foram decisivos e imprescindíveis para iniciar uma busca à procura de um suspeito.
Há pegadas ao redor dos corpos e um rastro de sangue leva aos fundos da casa. Ali encontram uma luva de couro. Dentro da residência identificam que a vitima é Nicole Brown, ex-esposa do jogador, ator e empresário O.J. Simpson.
Em uma tentativa precipitada da parte da policia, alguns se destacam para a residência de O.J. no intuito de se certificar da sua integridade física e de notificá-lo sobre o ocorrido. Lá, encontram um carro estacionado de forma suspeita, com vestígios de sangue dentro e fora do veiculo. Os policiais também encontram pegadas e gotículas de sangue à esquerda destas que levam diretamente a porta da frente da casa de O.J.
Daí pra frente, O.J. Simpson não mediria esforços para provar sua inocência nessa que foi considerada, a corrida da sua vida.
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Envolvidos

Ao longo de quase um ano e meio, foram ouvidas mais de 133 testemunhas e mais de duas dúzias de pessoas estavam envolvidas diretamente com o julgamento.
Dentre eles, elenco os principais participantes diretos (e indiretos) com o “julgamento do século”:

Julgamento

Com a estreia da série investigativa American Crime Story, o interesse do público pelo caso foi reaceso.
Ao longo de pouco mais quinze meses, Orenthal James Simpson ou O.J. ou Juice como também é conhecido, foi acusado de assassinar Nicole Brown e Ronald Goldman. Inúmeras provas foram identificadas e levantadas pela acusação para a condenação do ex-jogador. De forma cabal, a promotoria discorreu sobre todos os aspectos condenatórios relacionados ao acusado.
O curioso é que a defesa, na época chamada de o “time dos sonhos”, veladamente nunca intencionou no sentido mais estrito do termo “inocentar” o réu. A banca trabalhava com a ideia que o O.J. era vitima de um complô, uma ação conspiratória, onde policiais plantaram provas e evidencias que levavam a ele.
A intenção era formatar a imagem de O.J. como um mártir negro, um símbolo, um ideal libertário de uma realidade opressora, violenta e machista.
Em meio a teses com esse teor, a defesa alegou em uma atitude desesperada e maliciosa que as vítimas eram apenas números em mais um crime relacionado a drogas e até que Ron era homossexual, onde Nicole havia sido morta pelo seu até então “namorado”.
Logo nas primeiras audiências, o julgamento foi pautado pela questão racial. Nunca antes, um julgamento levantou tantos questionamentos e conflitos. Brancos, o consideravam culpado. Negros, inocente.
Vários pontos foram identificados durante o processo:
O uso do DNA como artifício em processos dava seus primeiros passos.
Testemunhas de ambas as partes eram ovacionadas e desacreditadas entre a pausa para um recesso.
A defesa teorizava, a acusação apontava.
Havia conflitos dentro e fora do tribunal.
Foram cometidos erros em ambos os lados. A defesa bem mais arquitetada, não conseguia inocentar O.J., mas nem por isso não contra-argumentava e refutava toda prova e comprovação da promotoria. Esta por sua vez, em muitas situações foi imatura e até mesmo arrogante, deixou com que provas e testemunhas chaves da condenação não fossem totalmente aproveitadas.
Estima-se que mais de 20 milhões de pessoas, assistiram aos momentos finais do julgamento.
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Desfecho

Composto por um júri de 9 negros, 2 brancos e 1 hispânico. O.J. Simpson foi declarado inocente em 3 de Outubro de 1995.
Mas O.J. ainda estaria presente nos tribunais em outros momentos.
Em 1997, em um processo civil liderado pela família de Ron Goldman, Simpson foi condenado a pagar a titulo de indenização o montante de U$33,5 milhões de dólares. Dentre os direitos adquiridos em juízo, o pai de Ron obteve a posse do troféu Heinsman, o direito de imagem, o nome e a historia do O.J. dentro da NFL e até royalties sobre o livro If I Did it, no qual relata como teria cometido o duplo assassinato “se” ele fosse o autor.
Em 2008, retorna aos tribunais dessa vez sob a acusação de invadir e assaltar dois hóspedes de um hotel-cassino em Nevada, que Simpson alegadamente afirmava que estes estavam de posse de itens pessoais e de colecionador relacionado ao ex-jogador e ele buscava apenas “reavê-los”.  No mesmo dia e mês da sua absolvição em 1995, Simpson agora com 68 anos é recolhido ao regime fechado com uma condenação de 33 anos por 12 acusações, dentre elas, sequestro e assalto à mão armada.

O julgamento do século em fatos e curiosidades

Cinco dias após o crime, O.J. seguiu pela interestadual 5 aos olhos de milhares de pessoas por 1h e 30m, percorrendo um trecho de mais de 96 km.
Ele fez isso porque gostaria de suicidar-se no local onde Nicole estava enterrada.
O.J. também era conhecido por “Juice”. Um apelido dado pela associação e trocadilho com o nome de batismo do ex-jogador Orenthal James, com Orange Juice (suco de laranja).
A palavra sangue aparece mais de 15 mil vezes ao longo do julgamento.
Marcia Clark e Johnnie Cochran juntos falaram mais de 70 mil palavras, 37 e 33 mil respectivamente.
Os autos continham mais de 1 milhão de linhas transcritas distribuídas em mais de 50 mil páginas.
Jeffrey Toobin , o autor do livro é retratado no 3º episódio da série.
Anteriormente, era o julgamento de Charles Manson que detinha o recorde de o mais longo da história da Califórnia.
Johnnie Cochran também já advogou em favor de Michael Jackson, Tupac Shakur e Snoop Dogg.
O.J. “escreveu” livros dentro e fora da prisão. O primeiro, I Want to Tell You resume-se em mais um exemplo da sua falsa modéstia e sobre sua preocupação em como sua imagem estava sendo denegrida. O segundo, If I Did it, publicado em 2006, foi mais polêmico. Neste, o ex-jogador conta como teria cometido o crime “se” ele fosse o verdadeiro assassino. Na publicação, O.J. conta com riqueza de detalhes como foi o ocorrido.
Segundo consta, o ex-jogador chegou armado com uma faca e usando as luvas na casa da ex-esposa, pouco antes de Ron Goldman chegar ao local para devolver alguns itens esquecidos pela mãe de Nicole no restaurante onde ele trabalhava. Transtornado, ele acusava Nicole de ter dormido com Ron. Ambos negavam em meio a gritos dos três. De repente, o cachorro de Nicole chegou animado e ficou abanando o rabo para Ron. Simpson alegou que preferiu acreditar no cachorro e tomou isso como a confirmação que precisava. Gritando que Ron já estivera ali e num acesso de fúria, partira para cima de Ron e o perfura diversas vezes, depois ataca Nicole que tentava inutilmente salvar Ron dos ataques. Simpson estava tão possesso que quase arrancara a cabeça de Nicole.
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A série x livro

Em uma decisão acertada, a DarkSide Books publicou o título que serviu de base para a primeira temporada da série American Crime Story.
O livro é um complemento necessário para o entendimento mais amplo das motivações e sentimentos envolvidos em cada decisão e acontecimento que ocorreu dentro e fora do tribunal.
A série e o livro se assemelham bastante com relação à perspectiva apresentada. Ambos focam de forma respeitosa o julgamento e as implicações de todo o processo na vida dos envolvidos. Prova disso, é o enfoque nos ritos processuais do julgamento, nas alegações da acusação e da defesa para com o crime e o acusado, respectivamente. As vitimas e as famílias diretamente envolvidas em nenhuma passagem do livro ganhou um tom sensacionalista ou exploratório. Isso está presente também na série, que prezou por inserir “os personagens reais” de forma pontual.
No livro, O.J. é explicitamente culpado, na série, essa condenação é subjetiva. O júri é renovado a cada telespectador que acompanhou o programa ao longo de seus 10 episódios.
Outro aspecto recorrente durante a leitura de American Crime Story – O Povo Contra O.J Simpson é o tema racial, isto está dramaticamente contextualizado e permeia como um dos principais alicerces da história.
Em ACS: O Povo contra O.J. Simpson é notória a imersão através do enredo, tamanha a desenvoltura e a precisão da experiente escrita do jornalista e ex-promotor Jeffrey Toobin. Ora sistemática, ora prosaica, a leitura segue sequenciada por meandros e reviravoltas que mesmo aquele, que apenas conheceu o caso através da série, pela internet ou acompanhou o caso à sua forma, ainda lhe será reservado notas e acontecimentos surpreendentes em determinadas ocasiões.
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American Crime Story – O Povo Contra O.J Simpson fascina pela leitura enxuta, objetiva e impressiona pela veracidade e ocorrência dos fatos. Originalmente publicado em 1996, o título ainda se faz atual em traçar um perceptível paralelo com aspectos tão presentes nos dias atuais: o mercado de escândalos em casos similares, a expansão e abrangência de notícias, a superexposição de celebridades, a discussão clara sobre crimes sofridos e cometidos por pessoas de cor e tantos outros.
É uma história tipicamente americana, onde o dinheiro, a raça, o sexo e os holofotes de Hollywood são coadjuvantes em uma trama polêmica e misteriosa, que dessa vez apresenta os sinais claros do declínio de um jogador, que vai dos bancos dos treinos e estádios lotados aos bancos dos réus.
O mais curioso disso tudo?
A única testemunha do crime foi um cachorro. O akita de Nicole Brown.

akita